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Pesquisas e a pintura da realidade ao sabor do que se crê February 21, 2008

Posted by Ezequiel Vieira in : comunicação, economia, empresas, inclusão digital, internet, política, redes, tcc, tecnologia, ufes , add a comment

Tecnologia sozinha não faz política! 

Vai saber se alguém chegou a mudar a proposta de tcc com medo de que alguém roubasse a idéia. Mas teve quem se sentiria mais a vontade se a conversa de orientação com a professora fosse bem ao pé de ouvido. Se possível, com hora individual marcada. O que tinha de mais interessante na massante aula de Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação, vulgo pré-tcc, era todo o cuidado quando era apresentado o que se pretendia estudar.

No primeiro dia de aula ao ritual de cada um dizer seus os nomes se somou a apresentação da idéia de projeto que eventualmente alguém já tivesse: todos tinham nome… mas qualquer criança de dois anos saberia contar quantos vinham com um tema já definido. No final do período veio a pergunta:

- Tem mesmo que apresentar, professora?

- Tem sim. Vale nota.

O resultado foi que fiquei sabendo em primeira mão as intenções de pesquisa na Ufes para este 2008/1:

Projeto de criação de uma agência de comunicação; plano de comunicação para um negócio da família; alguma coisa sobre como a imprensa trata da prostituição; o quanto as assessorias de mercado imobiliário pautam o jornalismo; a defesa da tese de que a comunicação interna das empresas ainda é deficiente; a evolução do reposicionamento de imagem de Lula ao longo de suas candidaturas; a evolução do desing de capa da revista Rolling Stone; o jornalismo cultural 2.0 etc etc.

Um levantamento iria mostrar um grande aumento de estudos relacionados à internet, apesar de que neste semestre não parecem ser tantos quantos foram no período passado. O que mais me chamou atenção mesmo é um projeto de uma colega que pretende avaliar se o ambiente digital pode ser suporte de ação para os movimentos sociais - bem na lógica binária do tudo ou nada pelo o que entendi.

Acontece que ela não tem uma tese que pode vir ou não a ser comprovada pela pesquisa. A colega tem um fato sobre o qual ela vai escrever. A tese/fato é cheia de problemas e de convicções que querem virar dado da realidade assim como dois e dois são quatro, o Brasil é pentacampeão mundial e Lula é o atual presidente brasileiro. Existe a crença de que a internet não pode ser usada como meio de mobilização política. A evidência mais gritante seria vista pelo o que as pessoas mais acessariam: sexo, sites de relacionamento, programas de bate-papo, entreterimento a não mais querer etc.

04/05/06 - É possível sim organizar movimentos pela internet. Estive presente em um Congresso no Rio semana passada e pude ouvir uma palestrante falando exatamente sobre isso.

Minha grande pergunta é/foi: Mas foi a internet quem trouxe essa tal massa alienada? A partir de que momento a intensidade do envolvimento político, tal como a projeto de pesquisa parece idealizar, foi satisfatória o bastante a ponto de que um possível retorno a essa tal realidade pudesse resgatar o presente de sua fragilidade a ser robustecida e ilustrada politicamente? Não sei se o autor vai constar na bibliografia da pesquisa mas Manuel Castells é insistente ao afirmar que a internet não reinventa a roda; ela desenvolve e potencializa aquilo que a a sociedade já tem.

01/06/07 - É inegável que “a luta reacendeu com uma força fantástica com o advento da internet”.

A digitalização traz uma matriz distribuída. Um novo paradigma que se caracteriza pela horizontabilidade cooperativa”. Descobrir novas formas de narrativas e de se fazer política se faz necessário. Os modelos anteriores parecem esgotados.

Uma evidência mais metodicamente encontrada sobre a alienação que a técnica promoveria seriam os dados de uma pesquisa feita com líderes comunitários de Vitória. A própria colega buscou saber o quanto de aglutinação em rede esses líderes promovem. A começar que o próprio uso de telefone parece ser luxo - luxo que até minha vó tem, ela que mora no distrito de Timbuí do modesto município de Fundão.  Email, computador próprio, acesso à internet parecem ser coisas mais do que restritas ao mundo daselite.

O problema desse tipo de pesquisa é que ela pinta a realidade ao sabor daquilo que já se tem como crença e/ou fato - o que acaba por sumariamente eliminar os dados que possam apontar outra coisa. Na verdade a questão é outra.

Esse tipo de pensamento que tanto costuma dizer que busca inspiração em Milton Santos deve ter feitos sim uma ampla leitura daquilo que ele escreveu. Da mesma forma que ouço gente dizer que é marxista sem nunca ter passado da orelha de O Capital. “Pelo menos tenho ideologia”, dizem. Sim. Ideologia ingênua e incompente do “ouvi dizer”. Também ouvir dizer que era verso bílblico algo como de “mil passarás mas de dois mil não passarás”. Mal e porcamente li a bíblia três vezes e nunca achei tal profecia que errou em pelo menos oito anos…  

Milton Santos faz sim uma contundente crítica à globalização, que ele caracteriza como uma tirania da informação e do dinheiro que promovem exclusão e desencadeiam violências sistêmicas. Mas ele tá longe de atribuir à técnica em si a determinação para qualquer tipo, ou para qualquer escala, de ação política.

21/05/07 - A fala de Giuseppe se encerra com uma questão em aberto e ao mesmo tempo retórica. De que forma se pode fazer com que a sociedade seja cidadã, e por fim produtiva, se de forma maciça ela não tem acesso aos meios de produção para fazer circular o seu trabalho na lógica de redes, uma vez que - como tanto frisa Vilches com boa dose de ceticismo - a internet traz uma técnica com grande horizontabilidade e potencial democrático, mas a intenção política é pré-requisito espinhal para que essa virtualidade democrática se materialize (ou se atualize - para se opor ao conceito de virtual).

Para o bem ou para o mal é o mesmo Milton Santos quem escreve que “é o homem quem fabrica a natureza, ou lhe atribui valor e sentido, por meio de suas ações já realizadas, em curso ou meramente realizadas.”

Ou seja, Tec-no-lo-gi-a so-zi-nha não faz po-lí-ti-ca.

A grande questão é a ser problematizada é saber por que, uma vez podendo, esses tais líderes comunitários não usam as novas tecnologias como novo suporte de ação. Nesse contexto a entrevista publicada em setembro passado cai como uma luva - “Temos muitas possibilidades, mas pouca vontade de agir”.

3. Até que ponto as TICs [teconogias de comunicação e informação] vem sendo usadas pelos movimentos sociais como instrumento de mobilização política? Quais os principais avanços e desafios podem ser identificados?

Creio que as TICs sejam potencialmente revolucionárias na capacidade de dispor conteúdos para além da pauta hegemônica, conectar pessoas mundo afora, reforçar comunidades, contradizer “verdades”, articular movimentos etc. Mas acho que vivemos um paradoxo: temos muitas possibilidades de ação, mas pouca vontade de agir. Parece-me que falta projeto de transformação capaz de mobilizar a maioria. Vive-se um desencanto com a política de verdade, aquela, nas palavras de Milton Santos, capaz de pensar as mudanças e criar as condições de torná-las efetivas.

Esse déficit gera a pauta da “política da vida” (Bauman), em que a nossa agenda é sobreviver, cuidar do próprio destino, como se fosse possível estar insulado num oceano de problemas coletivos. De qualquer maneira, toda revolução só se faz por processo e por educação. Ter tecnologias que somam e potencializam esse projeto já é algo a se destacar. Ter movimentos sociais e articulações várias usufruindo dessas tecnologias é um bom sinal. É mostra de que em uma realidade hegemônica renovada em suas estratégias, novos caminhos contra-hegemônicos se estabelecem.

O grande lamento a ser feito, ou melhor, o grande ponto a ser problematizado e superado é essa política míope que ainda carrega no andar o peso e o tilintar do maquinário e o cheiro da oleosidade industrial.

25/05/07 - Uma outra mudança estrutural do modo de se fazer política seria desencadeada a partir dos movimentos zapatistas, de Seatle e fóruns sociais mundiais - ver texto ‘Auto-Organização da Inteligência Coletiva Global - Uma estratégia para o movimento pós-Seattle-Gênova por Franco Berardi (Bifo)”.

Ainda no que Milton Santos escreveu

“Os sistemas técnicos de que se valem os atuais atores hegemônicos estão sendo utilizados para reduzir o escopo da vida humana sobre o planeta. No entanto, jamais houve na história sistemas tão propícios a facilitar a vida e a proporcionar a felicidade dos homens. A materialidade de que o mundo da globalização está recriando permite um uso radicalmente diferente daquele que era a base da industrialização e do imperialismo.

A técnica das máquinas exigia investimentos maciços, seguindo-se a necessidade e a concentração dos capitais e do próprio sistema técnico. Daí a inflexibilidade física e moral das operações, levando a um uso limitado, direcionado, da inteligência e da criatividade. Já o computador, símbolo das técnicas de informação, reclama capitais fixos relativamente pequenos, enquanto seu uso é mais dependente da inteligência. O investimento necessário pode ser fragmentado e torna-se possível sua adaptação aos mais diversos meios” - grifos meus.

09/05/07 - A luta política hoje não se fará entre entre direita e esquerda, mas entre quem vê televisão sem uma resposta e quem adere a Net com uma informação muito mais completa e que todos podem gerir e alimentar - Derrick de Kerckhove.

Ezequiel Vieira

Novas formas de produtividade no “Comunismo das Redes” January 24, 2008

Posted by Ezequiel Vieira in : "Jornalismo Cidadão", Jornalismo e Internet, blogs, capitalismo cognitivo, cibercultura, comunicação, copyleft, economia, inclusão digital, indicações, política, redes, tecnologia, ufes, web 2.0 , 1 comment so far

Os atuais estatutos de trabalho estão cada vez mais precarizados. 

Em março passado o professor de jornalismo digital daqui da Ufes, Fábio Malini, defendeu sua tese de doutorado na Federal do Rio de Janeiro - O Comunismo das Redes. Sistema midiático p2p, colaboração em rede e novas políticas  de comunicação na Internet (pdf).

A defesa fundamental da tese vem de uma citação de Derrick de Kerckhove para quem a luta política hoje não se fará entre entre direita e esquerda, mas entre quem vê televisão sem uma resposta e quem adere a Net com uma informação muito mais completa e que todos podem gerir e alimentar.

Acesse mais na postagem “A fuga das fábricas, o encontro nas redes”. Eis um trecho

A empresa, e não mais a fábrica, se moderniza e se modifica em uma dinâmica de redes. Se a questão do trabalho assalariado não é mais mecanismo fundamental de integração social, Cocco destaca que temos de pensar então esse mesmo elemento como ponto de partida para que uma lógica de inclusão se estabeleça. “A cidadania não é mais o resultado a ser alcançado, mas o ponto de partida para que o comum se constitua e haja na sociedade uma mobilização produtiva”.

O que fazer? A democratização para o crescimento e o crescimento para algo

A constituição da cidadania seria a condição pressuposta para uma política econômica que, digamos assim, esteja de acordo com a lógica de produtividade de riqueza hoje. Isso parte da constatação, um tanto óbvia a partir da discussão feita no seminário, de que “desenvolvimento econômico que não debater a nova economia, que se pauta pela produção imaterial, não pode ser chamado de desenvolvimento econômico.”

“Temos muitas possibilidades, mas pouca vontade de agir” September 25, 2007

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[Seminário A Constituição do Comum - blog] As palestras da parte da manhã devem ter acabado agora. Talvez, por essa última edição do seminário ter menos dias, dois a menos do de Vitória, por exemplo, se tem vários temas para serem colacados na mesa já no primeiro dia de evento. A programação tá lá no site do Ministério da Cultura - novas tecnologias de comunicação e informação, economia do conhecimento, políticas de comunicação e informação e inclusão digital.

Mas muita calma nessa hora. As discussões apresentadas nas mesas desta e das outras três edições do seminário serão publicadas em livro e na revista Global/Brasil. Assim talvez seja mais fácil digerir, com rabiscos, anotações e leituras mais pausadas, as idéias apresentadas que, só aqui em Vitória, contou com 30 palestrantes.

Em horários diferentes, dois professores daqui da Ufes, Fábio Malini, pela manhã, e José Antonio Martinuzzo, pela tarde, participam hoje como palestrantes.

Essa mini-entrevista foi feita por email com Martinuzzo ainda no sábado. De tudo o que foi programado para esse primeiro dia, ele vai palestrar sobre políticas de informação e comunicação com enfoque para o e-gov: (more…)

ES volta a debater Rede Pública de Televisão July 6, 2007

Posted by Ezequiel Vieira in : comunicação, eventos/debates, inclusão digital, internet, política, política/ES, redes, televisão , 3 comments

Comissão de Cultura da Assembléia Legislativa e a Rede de Comunicação e Articulação Popular (Recapes) organizam para a próxima semana um debate sobre o tema das “Redes de TVs Públicas no Brasil” - o convidado é o presidente  da Radiobrás, José Roberto Garcez. Também participam representantes da TVE, TV Assembléia e TVs Universitárias.

Os organizadores contam que o objetivo é o de iniciar um diálogo com a sociedade capixaba e seus movimentos organizados sobre TV Pública e como se dará a implantação, a gestão e o financiamento deste novo sistema de comunicação no país e no Estado.

 

O evento acontece no dia  12 de Julho/07, quinta-feira, 9 h, Plenário da Assembléia Legislativa, e é aberto ao público.

A democratização por uma perspectiva diferente

Esse tipo de discussão também esteve presente no seminário que aconteceu em maio na Estação Porto - A Constituição do Comum - a produção de comunicação e cultura na cidade (posts do blog sobre o evento). A tese foi a de que “os sistemas sociais, econômicos e políticos vem se transformando em redes distribuídas” e, como tal, a realidade e as estratégias de ação devem ser projetadas dessa forma.

Na versão do seminário que aconteceu aqui em Vitória foi a professora Ruth Reis, na mesa Desafios para a democratização da mídia, quem mencionou diretamente a questão de que “o modelo de comunicação de massa nasceu e entrou em crise ainda no século XX”.

Ela fez um rápido resgate sobre os movimentos pela democratização da comunicação no sentido de ressaltar que essas iniciativas datam de muito tempo, mas que seria inegável que “a luta reacendeu com uma força fantástica com o advento da internet”.

Toda a discussão anterior, sublinhou Ruth, seguia, e pelo visto ainda segue muito de perto, a lógica de uma matriz de massa. “Tinha que haver uma centralidade (legislação, iniciativa do Estado etc). A digitalização traz uma matriz distribuída”. Um novo paradigma que se caracteriza pela horizontabilidade cooperativa.

Agora, no que foi o delineamento marcante do seminário, se faz necessário descobrir novas formas de narrativas e de se fazer política. Uma vez que “os modelos anteriores parecem esgotados”.

Um exemplo irrecusável para aplicação dessa discussão caminha em direção do que Michel Bauwens argumenta em seu artigo “A Economia Política da Produção entre Pares”. Seria fora da nova realidade que está se configurando a partir da constituição de redes debater uma Rede Pública de Televisão nos moldes como a discussão bem sendo apresentada. O modelo público repetiria em forma estatal a mesma lógica empresarial de centralidade “esgotada” de produzir comunicação e cultura.

A discussão em torno desse tema ficou vem mais demarcada na versão desse mesmo seminário que aconteceu no Rio de Janeiro - assista “O Comum, para além do Mercado e do Estado - O Embate da TV Digital” disponível no site da UFRJ.

Leia também

02/07 - Seminário - A virtualidade da comuniação horizontal

22/06 - A cooperação como elemento constituinte das redes sociais

A produção do imaterial na cidade June 12, 2007

Posted by Ezequiel Vieira in : capitalismo cognitivo, cibercultura, comunicação, economia, inclusão digital, política, política/ES, redes , 2 comments

[Seminário A Constituição do Comum - blog] Com essa postagem chega ao fim as anotações que fiz durante o seminário. As postagens publicadas sobre o evento foram

21/05 - “A fuga das fábricas, o encontro nas redes”

24/05 - Internet: “O gato saiu do saco”

24/05 - “A televisão é controle da subjetividade”, diz filosófo

24/05 - “Com a economia intangível, a identidade se torna algo em construção, aberto a mudanças”, diz Antoine Rebiscoul

24/05 - “A Internet é a utopia de que qualquer um comunica”, provoca midiativista espanhol

25/05 - “A mudança não passa pela delegação de representação”, conclui editor da Le Diplomatique

25/05 - Seminário “Cultura e Conflitos no Capitalismo Contemporâneo” via internet

As anotações que publico agora são das apresentações feitas na quinta-feira. O tema foi “Dinâmicas metropolitanas e políticas de desenvolvimento” (more…)