Quando a política e a mídia não “se acertam” October 16, 2005
Posted by Ezequiel Vieira in : comunicação, crítica de mídia, do bastidor ao palco, política, política/ES , 1 comment so farNa cidade de Guarapari, litoral do ES, acontece um fato muito curioso envolvendo a Prefeitura Municipal e a mídia local, representada pela sua única emissora de televisão, a TV Guarapari: um jogo de interesses que revela a cada pauta selecionada o que deve se pensar a respeito do representante do Poder Executivo da cidade.
Essa história é longa, data do primeiro mandato do prefeito Antônio Gottardo, um senhor humilde e desconhecido que resolvera se candidatar para tentar mudar a situação caótica do município e enfrentar o coronelismo eleitoral existente figurado pelo clã dos Borges (cujo patriarca, coincidentemente, é o proprietário da concessão da TV local). Milagrosamente, “deu zebra” e Gottardo venceu, realizando um mandato que agradou a maioria da população, mas a elite não via a hora de expulsá-lo de lá, pois a principal responsabilidade daquele mandato era sanar as dívidas, que não eram poucas, e deixar de lado a boa e velha política do pão e circo, que trazia shows e mais shows para agradar os turistas que vinham esvaziar seus bolsos nos quiosques espalhados pelas sua belas praias. Este foi o grande erro de Gottardo, esquecer da maior fonte de renda da cidade. Mas isto não impediu a sua reeleição.
E foi neste segundo mandato que a mídia começou a destilar o seu veneno. Como já se sabe, o dono da TV é um importante político da cidade, mas também pai daquele que tinha sido o maior rival de Gottardo nas últimas eleições e que tinha sido prefeito antes dele. Existe também um outro dono da TV, que antes fora candidato a vice-prefeito na chapa do “Borges filho” e agora se elegeu como vereador… Isso lembra outra história: depois da derrota como vice, o senhor Ricardo Conde começou um quadro no telejornal de Guarapari intitulado De olho na cidade, no qual enumerava os problemas que a cidade enfrentava e o prefeito novato não tinha condições de solucionar. Parecia até dor de cotovelo. E há enormes chances de ter sido por causa deste quadro que Conde se elegeu, afinal tinha conseguido a simpatia da população mais humilde, carente de medidas mais populistas e de ouvir alguns desaforos ao representante maior do município. a grande questão é: será que este programa existiria com o mesmo formato e discurso se os dois tivessem se elegido?
Voltando à primeira história, há alguns meses que a TV vem fazendo algumas reportagens na feira livre, que tinha virado abrigo para um grupo de andarilhos. Toda noite, eles chegavam e dormiam em cima dos balcões da feira e deixavam um rastro nem um pouco agradável para os feirantes e compradores que iam para lá no dia seguinte (ressalva que a feira só funciona as quartas e sábados). E toda semana o quadro De olho… vai até a feira conversar com seus “moradores” e saber o que o Prefeito está fazendo. Até aí, tudo bem, pois é mesmo uma situação que precisa ser resolvida com mais urgência possível. Só que o apresentador é vereador, que está nitidamente na oposição e utiliza-se de artimanhas, joguinhos e perguntas capciosas e não fala das tentativas de Gottardo fez para tirar as pessoas do lugar, dando uma casa para o grupo e escola para as crianças, que foram rejeitadas, pois viver de esmola e não ter responsabilidade sobre uma casa é muito melhor do que ficar cuidando das coisas chatas do lar. Secamente falando, eles estão lá porque querem ficar se embriagando e causando pena nas outras pessoas. E ultimamente porque viraram um furo de reportagem.
Não esquecendo de dizer que o prefeito nunca se preocupou em dar entrevistas ou maiores esclarecimentos à mídia, talvez porque soubesse que iria ter sua imagem friamente manipulada.
Isto nos faz pensar em algumas questões: até onde os meios de comunicação estão a serviço da população e não dos interesses políticos? Será que Gottardo precisa de um bom media training? E, nós como poderemos perceber se estamos sendo ouvidos ou apenas manipulados num jogo midiático?
A TV Guarapari é como a revista Veja, que a cada dia nos ensina o que nunca devemos fazer no jornalismo. Isso se quisermos fazer um mundo melhor, utopias à parte.
Gabriely
As tragédias que a gente vê (na TV) October 13, 2005
Posted by Ezequiel Vieira in : crítica de mídia, política , add a comment11s de Setembro, Tsunami, Katrina, terremotos na Ásia. Furos de reportagem, utilidade pública ou camuflagem de outros acontecimentos? Uma vez ouvi alguém dizer que saber que milhares de pessoas morreram numa enchente na China não faz diferença nenhuma para ela, os chineses é que deveriam chorar. Só eles.Os meios de comunicação de massa, em especial a televisão, possuem o incrível poder de encurtar distâncias, tornar o local, global, e fazer do mundo uma janelinha brilhante ofuscando uma luz azul. Porém, o modo como as informações são passadas não são nada além de anestesia audiovisual e o telespectador assiste indiferente às cenas que se alternam com a imagem do apresentador. Ele não assimila. Não interpreta. Não analisa. Não identifica. Não critica. E tudo o que é veiculado é uniformizado: do mesmo jeito que falam sobre uma guerra civil num país da África, mostram tiroteios entre traficantes aqui no Brasil. E, se eu não me importo com os problemas da China (que seriam bem maiores que os meus), pra quê me importar com os do meu país?
Podem dizer que tudo isso serve para mobilizar o máximo de pessoas para ajudar países em dificuldade. Por exemplo, o que aconteceu na ultima semana com o terremoto na região da Caxemira-local bem familiar, não? Principalmente se você prestou vestibular há pouco tempo. Vários países já tomaram iniciativas ‘altruístas’ e daqui a pouco artistas irão fazer um mega-show beneficente sensibilizados com a causa. Mas, o que dizer sobre os EUA? Eles obviamente vão ajudar, afinal o Paquistão “é um forte aliado contra o terrorismo”. George Bush é tão bonzinho… Lembra do que ele (não) fez a respeito do que ocorreu em Nova Orleans só porque lá habita a população negra mais numerosa em termos de porcentagem do território norte-americano?
Estratégias político-militares se entrelaçam com as midiáticas. Isso não é segredo para ninguém.
…
Ou será?
se faça ouvir X as musas dos políticos October 10, 2005
Posted by Ezequiel Vieira in : crítica de mídia, política, política/ES, ufes , 3 commentsOs professores falam que o jornalismo deve promover a cidadania. Que os jornais devem agir não segundo o interesse do público, mas pelo interesse público – mesmo que seja difícil identificar qual seja esse interesse e que se torne cada vez mais questionável para onde apontar quando se fala em interesse coletivo.
Não que o jornalista seja alguém puro e um emissário da verdade e o que ele escreva represente a realidade – a leitura de um mesmo fato em veículos diferentes mostra o quanto uma mesma notícia pode receber várias versões, ou mesmo, em um extremo, ser uma outra coisa.
Mas, partindo do princípio de que a informação é o elemento fundador da nossa cultura, a partir da qual a pessoa constitui as suas verdades e valores para viver e se posicionar no mundo, é lamentável vê que tipo de informação circula em boa parte da imprensa, em que longe de promover a cidadania e de buscar o interesse coletivo, o que se vê é o culto a celebridades,futilidades e no lugar de debates, futricas políticas.
O que eu pretendo enfim, é comparar brevemente as duas matérias trazidas pela editoria de política dos jornais A Gazeta e A Tribuna no último domingo. Não quero dizer qual é o melhor. A intenção é apenas comparar as duas editorias em um dia específico.
*
O jornal A Gazeta traz a seguinte informação de política na capa
Como fazer a prefeitura resolver seus problemas
Cidadãos buscam órgãos das prefeituras para resolver suas dificuldades
“Reclamações de falta de vaga em escolas, buracos nas ruas, obras irregulares e melhorias na iluminação pública são algumas das demandas das prefeituras de Vitória, Vila Velha e Serra. Quem já acionou esses órgãos e teve a solicitacão atendida acaba recorrendo ao serviço mais vezes, beneficiando até a comunidade.”
O jornal destaca os meios que a população pode usar para se comunicar com o poder público e mostra também casos de pessoas que fizeram suas reclamações e conseguiram o que reivindicavam. Penso que esse pode ser um bom exemplo de reportagem que aborda o interesse público, principalmente se comparada à matéria que A Tribuna trouxe em sua capa no mesmo dia.
*
As musas dos políticos no Estado
A reportagem que ocupa as páginas 36 e 37 diz
Musas dos políticos
As mulheres que provocam suspiros nos palácios dogoverno do Estado e da Assembléia Legislativa
“… A reportagem de A Tribuna ouviu políticos e assessores para descobrir quem são as mulheres mais bonitas dos palácios da Fonte Grande e Domingos Martins – sedes do governo do Estado e da Assembléia Legislativa, respectivamente.
Na Assembléia, quem deixa os marmanjos boquiabertos ede queixo caído são……
As musas capixabas não condenam a atitude da jornalista Camila Amaral, musa das CPIs que pousou nua para a Playboy, mas descartam a possibilidade de fazer o mesmo, para tristeza dos admiradores de plantão.”
**
É uma pena que a única maneira que o jornal encontrou para aproximar o leitor da “chata política” seja apurar qual pessoa é mais assediada e lamentar que ela não esteja interessada em tirar a roupa.
Gosto de charges e quadrinhos e achei que ficaria bem terminar esse texto com o quadrinho do Gervázio (o cara que vive apanhando da mulher).
Rimas pobres
celebridades analfabetas
fazem as capas das revistas
onde fofoca se chama notícia
e fofoqueiros são jornalistas…
a cultura desinteressa
não apresenta um bom caldo
como a perereca no mês ou a ex do craque Ronaldo
Como a mídia pode ser esdrúxula… October 9, 2005
Posted by Ezequiel Vieira in : crítica de mídia, política , 1 comment so farNão sei se isto é fato comum a todos, mas de vez em quando, cansada de ver as notícias de sempre e dos agenda settings de que somos vítimas, passo o olho em alguns endereços para saber o que de mais bizarro e incomum acontece por aqui, ou ali (o que acontece com o Congresso e Lula também é bizarro, porém não conta, é covardia). Não existe cultura inútil ou falta de assunto: a argumentação é que às vezes é muito fraca. mas vamos logo ao tema que já estou fugindo demais…
Saber que um cozinheiro meio louco colocou maconha numa sopa e uma mulher a tomou e depois passou mal não vai me tornar uma pessoa mais consciente, quer dizer, assistir ao JN toda noite também não vai, mas…
Chegar em uma roda de amigos e dizer que soube de um chimpanzé parou de fumar após 16 anos de vício não vai me tornar a pessoa melhor informada, quer dizer, falar sobre alta dos ídices da Nasdaq e sobre commodities também não, mas…
Queria saber pra quê serve a mídia!
Continua nos próximos episódios…
Gabriely




