Blogs metropolitanos: “É hora de construir bairros na rede” December 10, 2007
Posted by Ezequiel Vieira in : "Jornalismo Cidadão", artigos, blogs, ufes , trackbackEis mais um artigo ou, para ser mais exato, eis mais um trabalho de final de semestre. Feito para a discisplina Internet e Jornalismo Cidadão, este é o trabalho final feito com a colega Camila Fregona.
O artigo segue abaixo na postagem. Quem preferir também pode fazer download - ele ainda não foi corrigido pelo professor, mas ficamos empolgados com o resultado e logo logo vamos fazer as devidas correções para futura publicação oficial em algum periódico por aí.
Resumo: O presente artigo faz uma avaliação das práticas de blogs metropolitanos das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Antes, são feitas considerações sobre o contexto social contemporâneo que possibilita essa prática em redes virtuais desde uma perspectiva pela qual a produção de comunicação e cultura se torna cada vez mais democratizada e sua distribuição e acesso se tornam também mais facilitados.
Palavras-Chaves: Redes Sociais; Blogs metropolitanos; Subjetividade; Sociedade em Rede; Jornalismo hiperlocal
Blogs metropolitanos: “É hora de construir bairros na rede”
Lorenzo Vilches (2003) identifica que com a introdução da indústria e do mercado, a partir do século XVI, o intercâmbio do conhecimento passa a experimentar grandes mudanças na estratégia política e cultural.
O acesso ao saber, que antes era restrito ao um detentor do conhecimento, se dispersa, se espalha e se globaliza a partir de quatro estágios básicos propostos pelo autor:
- Generalização do consumo de bens que incluem conteúdos de conhecimentos impressos e escritos. A mídia clássica nesta fase é o livro.
- Redução do tempo entre produção e consumo de conteúdos. Nesta fase coexistem o telégrafo, o telefone e o rádio.
- Capacidade de representar o conhecimento e a informação por imagens.
- Síntese dos suportes anteriores numa rede de interfaces. Interatividade e digitalização. É importante lembrar que os estágios anteriores não se excluem, mas se intercambiam.
Vilches está entre os autores que apontam esse último estágio como o catalisador de uma crise do modelo clássico de comunicação em seus fundamentos teóricos e práticos. De forma resumida, o modelo clássico da lógica linear emissor > mensagem > receptor entra em colapso. Potencialmente, todos são produtores de conteúdos nesse novo suporte virtual.
Sociedade do conhecimento para uns. Sociedade da informação para outros. Ou mesmo sociedade em rede ou tecnológica. O modo de apreender tem suas especificidades e nuances, mas o fato em questão é o mesmo. Potencialmente, toda a sociedade é posta ou se vê em condições de produzir. Os meios para distribuir essa produtividade antes estocada, não mais estariam restritos a um pequeno grupo que detém os modos de produção de riqueza. Para a fase contemporânea, a riqueza agora se estrutura e se estabelece em sua produtividade por uma lógica comunicativa e informacional.
Neste contexto, o conteúdo produzido nas margens, a partir do usuário comum, passa a protagonizar o que vai se constituir na chamada web social, que resulta das interações feitas em rede. Obra que, como lembra um dos diretores do Yahoo!, Ricardo Baeza-Yates, (2007) “va mucho más allá de las fotos y videos”.
Diante dessas mudanças que as novas tecnologias de informação e comunicação [TICs] provocam e potencializam, o que Da Cruz (2006) busca problematizar é como a atividade jornalística é afetada e se reconfigura. O autor lembra que as TICs estão gerando “nuevas formas de relacionamiento entre los periodistas y el público, y el público mismo ha tomado a su cargo tareas periodísticas.” (Da Cruz, 2006. p. 1)
Duas seriam as características fundamentais desse novo formato de jornalismo. Ele obedeceria a um estilo mais conversacional e, portanto, se vê muito mais afetado por aquilo que o público diz. Percebe-se outro ponto fundamental logo na primeira citação feita por Da Cruz em seu artigo: “La mayoría de la gente (…) no tiene tantas horas diarias para leer la web, y quiere que alguien le diga rápida y sucintamente lo que necesita saber.” Essa não seria a descrição da atividade de cartografia de que Jesús Matin-Barbero analisa em seu livro “O Ofício de Cartógrafo [travessias latinoamericanas de comunicação na cultura]”, sobre o novo papel a ser desempenhado para que caminha o jornalismo?
Nesse novo cenário, o jornalista deixa então de exercer o papel do único provedor de informação. O leitor agora também quer interferir no conteúdo. O link Editar das plataformas wikis é bem paradigmático nesse sentido. O momento indicaria o jornalista muito mais relacionado a desempenhar o papel de organizador de conteúdos, o jornalismo cartógrafo, do que o de ser porta-voz da verdade. Talvez, no fim, essa seria a repetição de uma velha atividade atribuída ao jornalista - organizar a realidade, o caos, cartografar os acontecimentos, enfim, reunir “rápida y sucintamente lo que necesita saber .” (Da Cruz, 2006. p. 01)
Mas se o jornalista caminha para o ofício de cartografia, como pode ser caracterizado o que as pessoas, digamos, comuns/amadoras, produzem? Tanto para um quanto para o outro, Da Cruz lembra que existem nomes diferentes e que também expressam formas diferentes de agir dentro desses dois meta-ofícios.
…. periodismo ciudadano, participativo, cívico, social, de fuente abierta, comunitario o periodismo 3.0 (de tercera generación). Las denominaciones no son sinónimos sino que, con matices, los adjetivos califican fenómenos contemporáneos que potencian el protagonismo de lectores o audiencias, o aún su autonomía. Según cómo se instrumente el concepto, según en qué actor se ponga el acento, la potenciación sucede en los marcos de los medios tradicionales o va por fuera de los mismos, ligado a las tecnologías digitales. (Da Cruz, 2006. p.2)
Seria esse o caso de os jornalistas serem mais editores do que propriamente jornalistas em seu sentido até aqui entendido? Varela (2007, Online) indica que um aspecto fundamental nesse contexto é a nova forma de valoração da informação. O autor vai diferenciar esse valor a partir de dois momentos. A chamada era da escassez e, agora, a era da abundância.
Na escassez o valor da informação era estabelecido a partir da dificuldade de se conseguir notícias atuais e verdadeiras. Na era da abundância, Varela aponta que o problema não é a falta de informação. Agora se tem para todos os gostos, espalhada pelos grupos de estilos e afetividades formados e potencializados pela internet. A atitude de agora seria a de apurar, cartografar qual é a informação mais valiosa e fazer uma reelaboração para que todos, e não apenas um grupo em particular, possam saber.
2. Metroblogs
Metroblogs basicamente são diários que têm como função fazer uma crônica da cidade. Varela (2007) lembra que quando se pensa em cidades pequenas, nos povoados, nos bairros, nos lugares onde se desenvolve a vida cotidiana das pessoas normais, os meios de comunicação até podem fazer uma cobertura da vida cotidiana, “mas não suficientemente a fundo”. O autor ressalta também que a profundidade a que podem chegar os meios de comunicação tradicionais e as redações profissionais, quando se trata de assuntos cotidianos das comunidades mais próximas do cidadão, é escassa.
Em entrevista ao jornal A Gazeta, o diretor de jornalismo da TV Gazeta, afiliada da Rede Globo no Espírito Santo, Abdo Chequer, também parece reconhecer essa limitação de alcance da pauta e apuração do jornalismo tradicional. “Atender aos interesses da comunicação com jornalismo hiperlocal é muito interessante, mas intelectualmente, me parece carente.”
Não ficou claro ao longo da entrevista como, em que medida e referente exatamente a que, ou a quem, aconteceria essa limitação intelectual do jornalismo hiperlocal. O fato é que os acontecimentos do que também se convencionou chamar de informação microlocal, não podem ser encontrados nas páginas dos jornais. A maioria desses veículos, aponta Varela, “não conta com a redação suficiente nem com páginas necessárias, além de não supor que esses acontecimentos e informações sejam importantes.” (Varela, 2007. p. 44)
Para superar esses furos no tecido informático local surgiram os meios cidadãos, ou colaborativos, hiperlocais, exemplificados neste artigo pelas experiências de blogs metropolitanos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os chamados metroblogs têm entre suas características estruturantes o fato de que a informação provém basicamente das colaborações de vizinhos ou pessoas comuns, interessados no que ocorre nas comunidades locais ou mesmo na cidade como um todo, mas sob uma outra perspectiva de abordagem.
Mas esse jornalismo hiperlocal não vem refutar ou deslocar os meios de comunicação tradicionais. O objetivo fundamental indicado por Varela é “ser complemento e preencher o vazio existente pela dificuldade e carência de se cobrir com métodos e jornalistas profissionais os acontecimentos de menor importância da atividade social e cidadã”. (Varela, 2007. p. 46)
Henrique Antoun, professor do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também compartilha dessa perspectiva da não substituição dos meios. Em palestra em Vitória no seminário “A Constituição do Comum” (Maio de 2007) ele argumentou que os blogs não vão fazer com que os veículos tradicionais desapareçam. Isso porque, lembra, a lógica que os mantém são bem diferentes. “O veículo publica o preconceito de sua audiência. Você só arregimenta as massas a partir de grandes preconceitos. Ela [a massa] é mantida dócil pelos meios de comunicação fazendo com que ela desconfie de sua capacidade de ação.”
A estrutura dos blogs se destoaria no sentido de que eles não representam uma comunicação para os outros. Seria antes uma perspectiva a partir do mundo de quem produz, o que leva ao necessário reconhecimento no enunciado do sujeito produtor de seus discursos. Muito diferente dos efeitos de objetividade e realidade buscados pelo jornalismo tradicional, pois conforme lembra Ramaldes (1997, p.4). “Além de produzir efeito de verdade objetiva, o jornal, com a aparência de afastamento, evita arcar com a responsabilidade do que é dito, já que sempre transmite a opinião dos outros, o saber das fontes”.
3. Estudo de caso
3.1. Metroblogging Rio de Janeiro
Este exemplo de blog metropolitano faz parte da plataforma Metroblogging Network, que possui atualmente 52 páginas¹. Destas, 29 estão na América do Norte, 12 na Ásia, oito na Europa, duas na Oceania e apenas uma na América do Sul. O único representante sul-americano é o blog da cidade do Rio de Janeiro, que será apresentado a seguir.
O Metroblogging, como o próprio portal se define, é escrito da perspectiva de pessoas que vivem, trabalham e divertem-se na cidade todos os dias. É uma oportunidade de saber mais sobre o Rio de Janeiro, através das experiências compartilhadas pelos autores.
O Rio Metblog surgiu em 30 de junho de 2006. Em 17 meses já conta com 815 posts e quase três mil comentários. Em seu primeiro post, já fica claro o caráter informal que estará presente nos textos.
“O Rio Metblog nasceu no Lamas, bar/restaurante que fica no Flamengo. Nunca fui muito com sua cara, para o desespero de amigos, conhecidos e outros. Ele parece ser uma unanimidade, por ser um lugar bacana, com comida e bebida boas e aberto até altas horas.
Mas ontem, enquanto nos reuníamos e imaginávamos as possibilidades deste blog carioca, observei o Lamas diferente. (…)
O Lamas tem 133 anos e fica na Marquês de Abrantes 18. O manual diz que fica aberto até às 3hs, mas isso pode ser negociado”. (Lamas. Escrito por Marcelo Nóbrega, em 30 de Junho de 2006)
O blog é dividido em 28 categorias:
Ar livre, Bares, Bizarrice, Coisas, Comida, Cultura, Dia, Esporte, Eventos, Exposições, Futebol, Internet, Jornais, Lugares, Música, Na rua, Natureza, Noite, Notícias, Pessoas, Poesia, Política, Praia, Rádio, Restaurantes, Só rindo…, Shows e TV.
Nelas, existe a preocupação de representar a cidade na Rede, junto com assuntos bem gerais cuja abrangência possibilita que se escreva qualquer coisa pelo critério do que se queira no momento.
Rio Metblog é escrito por
- Ilka Porto [ser humano dotado de olhos, boca, ouvidos, nariz, cérebro e coração. Não necessariamente nessa ordem],
- Luiz Paulo Rocha [um artista plástico que perde seu tempo escrevendo de graça pra esse blog],
- Alexandra Wiltshire [estudante de Tradução na PUC-Rio, cantora, compositora, carioca e moradora da aflita cidade do Rio de Janeiro] e
- Letícia Novaes [papel de carta].
De acordo com a descrição pessoal de cada autor, o leitor pode conhecer um pouco sobre a personalidade de cada um e reconhecer também as características que permeiam cada texto, mesmo sem observar o nome que assina cada post.
A formação dos autores influência bastante a forma de cada um escrever. O Rio Metblog possui posts com caráter literário, outros em que o fato é um olhar diferente sobre a paisagem da cidade, diferenciando assim as narrativas, em histórias que vão desde pequenos ensaios, até registros pessoais ou verdadeiros desabafos diante do caos da cidade.
Em cada pequena história, curiosidades da cidade - algumas que provavelmente só os cariocas entendem, outras que o visitante precisa conhecer minimamente a cidade para poder visualizar a cena descrita. Outros posts retratam traços marcantes da personalidade e da linguagem oral do carioca. Essas peculiaridades ressaltam o caráter hiperlocal do meio.
“SÁBADO, FIM DE TARDE, SOL SE PONDO EM IPANEMA.
POSTO NOVE.TODOS: Clap, clap, clap, clap, clap… [aplaudindo o pôr-do-sol]
LEK 1, COM LÔRA BOAZUDA A TIRACOLO: Qualé, merrmão, já vai vazá já?
LEK 2, ALISANDO O ABDOME SARADO: Pôôô… Acho que já vou chegar já, irrmão.
BROU, COM BOLA NO PÉ E AÇAÍ NA MÃO: Belê, lek. Aquela parada nem rola, então, né?
LEK 2, ALISANDO A NUCA: Aê, brou… Acho que nem. Fica bolado?
BROU, COM AÇAÍ NO PÉ E BOLA NA MÃO: Trank… Marr tá ligado que tu tá deveno, né, xóqui?
LEK 2, ACENO DE TORCIDA, GANGUE, COMANDO OU QUALQUER COISA QUE OS IDENTIFICA COMO TURMA: Valeu. Força aê, fui.
LEK 1, CABEÇA COM CABEÇA DO BROU: Já vô chegar já tamém, brou. O sol já foi já. Formô?
BROU: Já é. Tamém tô vazando.
LEK 1, TAPINHA NA BUNDA BOAZUDA DA LÔRA: Tu vem comigo.
LÔRA BOAZUDA: …
TODOS SOMEM NO HORIZONTE.
EU: Clap, clap, clap, clap, clap…
(Licença mau-humorética que logo passa com um bom banho de mar. No Leme, claro)”.
(Ela é carioca. Escrito por Maíra Abrahão, em 20 de Julho de 2006)
“E viva a Lisboa de Portugal que nos legou esse sotaque carioca cheio de xizes e de erres e todos os santos e santas e todos esses açougues, padarias e botequins que se chamam rainhas disso e reis daquilo, sobremaneira as dúzias de variantes em torno do bacalhau, seja o Rei do Bacalhau, seja o Bacalhau do Rei, seja ainda este Império do Bacalhau e aquele Bacalhau Imperial, príncipes e princesas do Reinado do Bacalhau e todas essas nobrezas vagabas que se estampam nos letreiros e nos cartazes da cidade, inclusive o da Padaria Santa Marta, na Fonte da Saudade, que anuncia em promoção 88 bolinhos de bacalhau, tudo aos módicos 88 reais e 88 centavos”.
(Salve meu nobre. Escrito por Luiz Paulo Rocha, em 08 de Novembro de 2007)
Em todos os textos, o sentimento de quem o escreveu está muito explícito, seja no prazer de falar das experiências positivas na cidade ou no repúdio a algum problema vivenciado pelo Rio e seus moradores. Por parte do leitor, fica a possibilidade de se encantar ao ver uma cidade mundialmente conhecida, como o Rio de Janeiro, descrita pelas pessoas que vivenciam a realidade local dia a dia e não somente por manchetes, muitas vezes tendenciosas, de jornais.
“No Brasil o carioca é conhecido, entre outras, pela malandragem, o cara ‘exxxxperto’. Isso irrita muita gente de outros estados que chega para visitar a cidade maravilhosa.
Longe de ser uma especificidade local, vemos que até em países ditos desenvolvidos, de “primeiro mundo”, como Grécia, Itália e Espanha, a malícia e vontade de tirar vantagem em cima dos outros também é constante.
(…) Na verdade, onde tem turista, tem um bando de besta em potencial e alguém querendo se aproveitar, pouco importa o lugar do mapa. (…)
A malandragem é universal, mas os artifícios para exercê-la são diferentes. (…) Pelo menos o europeu é mais pacífico na hora do roubo, ou melhor, furto. E muito provavelmente não vai apontar uma arma na sua cabeça. O que já é alguma coisa.”
(Malandragem universal ou turista é uma merda. Escrito por Ilka Porto, em 16 de Outubro de 2007)
Em outros casos, são mostrados ângulos diferentes das tragédias quase diárias que a mídia pontua. É quando o cidadão carioca, que vivencia esses fatos e às vezes não se dá conta do que acontece ao seu redor, assume o papel tradicionalmente legado ao jornalista e se torna o sujeito que informa, com fatos reais, mais sentimento, além de observações que vão muito além do lead.
“Ontem à tarde saindo de uma gráfica, ali no finalzinho da Rua da Passagem, notei uma caminhonete toda queimada, vidros estraçalhados em volta, ferragem retorcida, parecia até carro do Jó, aí do post abaixo. Estava rodeada de curiosos e trazia ao redor aquelas fitas amarelas da Defesa Civil. Na hora achei interessante aquele monte de ferro destroçado. Hoje fiquei sabendo que o carro pertencia à professora de catecismo Vitória Marques, que morreu quando seu carro, um Santana Quantum, foi metralhado por assaltantes e explodiu em seguida. Havia um padre com ela, que também foi atingido mas sobreviveu aos tiros. Dona Vitória foi enterrada hoje no São João Batista e seu caixão estava coberto com a bandeira do Botafogo”.
(Tem coisas que também acontecem em Botafogo. Escrito por Luiz Paulo Rocha, em 04 de Dezembro de 2007)
Os traços da linguagem característica do carioca estão evidentes nos posts. Essas marcas bem nítidas na fala, estão presentes também na escrita. Os textos são produzidos sem o rigor da norma culta e, como destaca Varela (2007), quanto mais oral é o estilo, mais os leitores se sentem pertencentes ao meio, já que eles se identificam com pessoas que escrevem da mesma forma como eles falam.
“(…) No ano passado, conheci uma paulistana que me pediu ajuda pra entender minha cidade. Segundo a lógica de que toda cidade é uma língua, por algumas horas virei professor desse idioma chamado Rio de Janeiro. Mas como uma língua só se aprende na base da humilhação e do erro, como diz uma amiga querida, dei à paulistana uns dois ou três verbos, uma dúzia de bons substantivos, uma interjeição pra casos de emergência e orgasmo (uma só pros dois casos) e mandei que comprasse um mapa, numas de “Ó só, mina: isso aqui é a guerra, tá ligada?”
(Cartografia Carioca. Escrito por Nuno Virgilio Neto, em 30 de Junho de 2006)
3.2. Sampaist
Um exemplo de blog metropolitano na cidade de São Paulo é o Sampaist. É ligado a Gothamist LLC, que se considera a mais popular rede de blogs de cidades na internet hoje. No entanto, segundo texto apresentado na página principal da Gothamist LLC, a rede possui apenas 14 sites, em cinco países. Como característica comum a todos os blogs metropolitanos, essa rede nova-iorquina também prioriza as notícias locais, eventos, comidas e entretenimento a fim de atrair a audiência do público jovem.
O Sampaist é o único latino-amercano presente na Gothamist. Foi lançado oficialmente em maio de 2006 e em menos seis meses já contava com mais de mil posts. O blog segue o direcionamento da rede, como percebe-se em sua auto-descrição:
Sampaist é um site sobre a cidade de São Paulo e tudo o que acontece nela. Isso significa notícias, eventos, bares, restaurantes, acontecimentos e opiniões.
Como a cidade, o blog é multifacetado. Gostos (bem) diversos entre os colaboradores, mas cada um na sua e com espaço para todos. Uma paixão com objetivos em comum: textos agradáveis, críticas contundentes, histórias bem humoradas e dicas imperdíveis. O Sampaist fala para quem quiser ouvir. Não se dirige ao gringo perdido na Paulista, nem ao paulistano que nasceu gritando “meu”. Você vai estar lá em algum post. Seja você um daqueles que não perde uma garoa na esquina da Ipiranga com a São João, ou um daqueles que não faz idéia do que seja a 25 de Março.
Sampaist é atualizado diariamente, de acordo com o objetivo de documentar a vida paulistana e todas as suas nuances. Possui um editor (Leandro Meireles Pinto), um co-editor (Lucas de Oliveira Fernandes) e nove colaboradores (Ana Carolina Monteiro, Athos Sampaio, Carlos Augusto Gomes, Fernanda Fontes, Ligia Helena Sales Nunes, Luiz Horta, Marcela Tavares, Mayara Geraldini, Renata Honorato). Nas apresentações de cada participante, a relação pessoal com a cidade. Poucos deixam claro qual é a profissão, exceto – Renata Honorato, que relata ser em seu perfil “jornalista, apaixonada por música e cinema”.
O blog mantém certo nível de diálogo com os leitores, uma vez que em seu texto de apresentação afirma que dicas ou idéias para novos posts podem ser enviadas para o email de um dos escritores. Quanto à participação, o blog afirma que está constantemente em busca de novos colaboradores. Segundo a apresentação do Sampaist, para participar bastaria amar a cidade de São Paulo e enviar um email ao editor.
O blog é dividido em 17 categorias
Aniversário da cidade, artes & eventos, carnaval, cinema, comportamento, consum-ist, entrevistas, esportes, imagens da cidade, internet, música, noite, notícias: SP, opinião, sabor da cidade, sampa para menores, universo-ist.
Pelos temas, percebe-se que existe a preocupação de representar a cidade da forma mais abrangente possível, para que o visitante possa conhecer a capital paulista sob diferentes aspectos.
Mas, diferente do metroblog carioca, o exemplo paulista apresenta textos mais informativos do que literários e direciona os posts para assuntos que interferem diretamente no dia a dia da população. Isso reforça o caráter de jornalismo feito por e para cidadãos.
Tá lá no site da prefeitura: convênio com o governo Serra, assinado esta semana, garante a São Paulo mais 1.150 pessoas para o Cidade Limpa — carro-chefe da administração Kassab.
Os trabalhadores são bolsistas do Programa Emergencial de Auxílio-Desemprego - Frente de Trabalho. Cada subprefeitura terá 150 bolsistas, que vão realizar mutirões de limpeza e de conservação em ruas, praças e jardins.
Todos vestindo o uniforme amarelo e azul que já foi tema de post aqui e que, na imagem acima, quase foi promovido a crucifixo em missa tucana, não é, não?
Na estrutura editorial aparecem inserções como “Vídeo” e “Imagem da Semana” – retirados do Youtube e Flickr, respectivamente. O post, quase diário, “Extra Extra!” traz as principais manchetes de São Paulo publicadas por portais como G1, IG e Folha.
Referências Bibliográficas
¹ Não consideramos para esse estudo a categoria “Outros” presente na lista. Essa categoria era composta por apenas 1 página, em 06 de dezembro de 2007.
BAEZA-YATES, Ricardo. IN: “Internet é a nova realidade”, afirma diretor do Yahoo!. Acesso em 06/12/07
DA CRUZ, José. Periodismo Ciudadano: Ruído y Nueces. Acesso em 07/12/07
GOTHAMIST LLC. Acesso em 07/12/07
JORNAL A GAZETA. “A Sociedade perdeu suas bandeiras.” Disponível na Internet: Acesso em 06/12/07
MARTÍN-BARBERO, Jesus. O Ofício de Cartógrafo [travessias latinoamericanas de comunicação na cultura]. Editora: Loyola
RAMALDES, Maria Dalva. O discurso político sob o olhar semiótico. Dissertação de Mestrado. Ano de Obtenção: 1997. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP, Brasil.
RIO METBLOG. Acesso em 06/12/07
SAMPAIST. Acesso em 06/12/07
VARELA, Juan. Nuevos medios, nuevos periodistas. Acesso em 06/12/07
VARELA, Juan. Jornalismo participativo: o Jornalismo 3.0. IN. Blogs: Revolucionando os Meios de Comunicação. Editora: Thomson Learning
VILCHES, Lorenzo. A Migração Digital. Ed. PUC-Rio, 2003.














Comments»
O artigo é interessante. Já fiz o download e lerei depois. Para mim caiu como luva, visto que em fevereiro lanço um blog jornalístico para a cobertura dos fatos de um município, será bastante útil para a “prática” do projeto.
Sem dúvida, o conceito de esfera pública do Habermas está relacionado com a potencialidade da internet, no que tange a descentralização e pluralidade nos fluxos comunicacionais.
Hoje (12/12) o debate no mini-curso será sobre o ensino do jornalismo na Espanha, será um bom momento para repensar o nosso ensino.
Até,
São feitas considerações sobre o contexto social contemporâneo que possibilita essa prática desde uma perspectiva pela qual a produção de comunicação e cultura se torna cada vez mais democratizada e sua distribuição e acesso se tornam tb mai…