Filosofia e catarse November 27, 2007
Posted by Ezequiel Vieira in : catarse, ufes , trackbackFico imaginando o quanto de material que a academia produz e que fica estocado pra sabe Deus quem. Acho que, digamos assim, deveria ganhar o mundo.
Não sabia, por exemplo, que o simples fato de disponibilizar meu relatório final de iniciação científica por aqui fosse me render alguns cumprimentos, me pareceu algo tão natural…
Uma tarefa que penso em começar a fazer é buscar saber o que as universidades fazem com as pesquisas realizadas [tccs, mestrados, doutorados, iniciação científica etc] e como disponibilizam isso. Talvez seja falha minha, mas mal sei como esse processo de arquivamento e hipotética disponiblização é feito pela Ufes.
Mas enfim. A postagem é pra disponibilizar o Estudo Dirigido feito para a disciplina Filosofia e Ética. Digamos que o estudo ainda não foi sancionado pelo professor, mas já fica por aqui a quem interessar possa.
Essa matéria só veio amadurecer o que já vinha encaminhando faz um algum tempo: esquecer os livros de auto-ajuda e buscar ler mais filosofia; descobri que é uma ótima terapia.
Esse é um bom vídeo sobre a vida e obra de quem tô conhecendo e cada vez gosto mais: Nietzsche.
Lendo Schopenhauer, por exemplo, - que me parece ser mais realista do que o pessimista roxo de que ouvi falar - aposentei minha crônica teoria da conspiração [virei adepto da teoria do caos...], de desconfiar de cada olhar, de querer ver qual sentido oculto de alguma coisa. De me torturar sobre o que os outros estejam pensando de mim. Enfim. Aposentei muito de minhas paranóias e não gastei um centavo com psicológo…
Feito com meu colega João Paulo, eis o estudo:
Nomes: Ezequiel Vieira, João Paulo Pereira
Disciplina: Filosofia e Ética
Professor: Weksley Gama
Data: 28/11/07
Estudo dirigido
1. Comente a passagem a seguir: “A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo”.
É muito comum ser atribuído às crianças a atitude de sempre fazer perguntas. Questionamentos esses por vezes considerados incômodos. Mas é justamente esse olhar de permanente estranhamento e questionamento da realidade que costuma ser perdido com o que pode ser chamado de “normalização do real” – atitude inteiramente contrária ao processo de conhecimento filosófico. Mais do que respostas – o que nem sempre se alcança, mesmo porque esse não o objetivo final – o que esse conhecimento filosófico traz e provoca são novas inquietações e questionamentos.
2. Como Sócrates se colocava na estruturação de seu pensamento? Esboce em algumas linhas como esse pensador procedera diante da questão do conhecimento e do saber. Comente sua atitude filosófica.
Sócrates procurava estabelecer um debate com as pessoas. Nas praças públicas, fazia perguntas para os indivíduos, principalmente para aqueles que diziam dominar certo assunto. O intuito do filósofo era mostrar às pessoas que elas nada sabiam, incentivando-as a questionarem o familiar, os valores estabelecidos.
O conhecimento do pensador não era proveniente de livros, mas de sua própria experiência cotidiana. Assim, era um conhecimento vivo, que estava em constante mudança.
Sócrates criticou o saber dogmático, mas não se colocava numa postura de farol, ou seja, de impor sua maneira de conceber a realidade. Sua intenção era muito mais a de despertar as consciências. E esse despertar das consciências é justamente a grande contribuição socrática. As pessoas devem rejeitar as compreensões sobre a realidade que lhes são transmitidas de forma inquestionável, pois é somente pela reflexão que se pode avaliar se uma determinada perspectiva é a mais certa ou não. Sem esse caráter crítico, o conhecimento não avança, a sociedade não progride.
3. Quanto à relação da filosofia com as ciências, o que é possível aferir a partir do estudado?
A ciência é dedicada, digamos especializada, em investigar campos de saber específicos e particularidades – como a física estuda o movimento dos corpos ou a biologia a natureza dos seres vivos, por exemplo. Segmentada por campos de saber, as afirmações da ciência são chamadas de juízos de realidade, já que de uma forma ou de outra pretendem mostrar como os fenômenos acontecem, quais são suas relações e, por fim, como prevê-los.
A filosofia, por sua vez, se diferenciaria da ciência, fundamentalmente, por adotar uma visão interdisciplinar que não busca estabelecer regras de funcionamento e previsibilidade dos fenômenos e sim o porquê deles desde uma ordem ontológica que os constituem.
4. Comente a possível aproximação ou o afastamento quanto às semelhanças ou diferenças entre as chamadas filosofias de vida com relação à filosofia propriamente dita. O que caracteriza cada uma?
Entende-se por filosofia de vida o “filosofar” espontâneo do homem comum. Ora, em nosso dia-a-dia, somos levados a momentos de parada para que possamos analisar o significado de nossos atos e pensamentos. Quando o indivíduo pensa na melhor escola para seus filhos, se ele vai morar em casa ou apartamento, se deixa um emprego para assumir um estágio, adota uma postura “filosófica”. O filósofo propriamente dito é um especialista cujo objeto de estudo interessa a qualquer ser humano. O homem comum, o pai que escolhe a escola de seu filho, não é, no entanto, um especialista. Contudo, ele também se vale de critérios para orientar sua decisão.
A filosofia propriamente dita surge no momento em que o pensar se torna objeto de reflexão. O filósofo profissional pensa com uma coerência superior ao outros homens, conhece toda a história do pensamento e sabe explicar o desenvolvimento do pensar. Além disso, a reflexão filosófica é radical, rigorosa e de conjunto. Radical porque tenta explicitar os conceitos básicos utilizados nos diversos campos do pensar e do agir; rigorosa porque leva as conclusões às últimas conseqüências; e de conjunto, pois examina um problema relacionando seus diversos aspectos entre si.
5. Analise a seguinte afirmação: “A filosofia é a ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Relacione esta passagem com a possível utilidade da filosofia. Posiciona-se quanto a esta passagem de modo a desmontar o que pensa sobre a seguinte questão: filosofia, útil ou inútil?
A sempre lembrada história de que Sócrates passava horas debatendo idéias em praça pública traz um elemento importante para entender a “utilidade” da filosofia, ontem e ainda hoje também. A filosofia tem, em si, uma vocação política uma vez que também se faz por meio da discussão e da busca criativa de soluções – que também não são definitivas.
Filosofar é “útil” por que leva ao questionamento que altera a ordem, “perturba, incomoda e é sempre ‘expulsa da cidade’ uma vez que rejeita o pensamento dogmático e o discurso legitimado de poder”. Portanto, a filosofia é a possibilidade da ” transcendência” humana. Ou seja, a capacidade de que só o homem tem se superar uma situação dada e não escolhida. Por essa “transcendência” o homem surge como um ser que projeta, capaz de liberdade e de construir seu destino.
6. Em que sentido, podemos verificar a articulação entre o caráter coletivo da moral e o caráter individual da mesma? Qual seria o papel do pensamento quanto à moral na lida com estas esferas?
As normas devem guiar o comportamento das pessoas numa coletividade, mas, para que isso aconteça, é necessário que cada indivíduo as aceite livre e conscientemente. O pensamento deve, então, estar ciente dessas duas esferas da moral para que encontre um ponto de equilíbrio entre elas. Ora, se todos os homens negassem as normas, o mundo seria um caos, pois todos agiriam conforme suas vontades. Por outro lado, se as normas fossem herdadas sem discussão, elas não seriam revistas e, portanto, acabariam perdendo a validade. O mundo e as pessoas mudam e a atitude que seria a mais correta no passado pode não ser a mais certa hoje. Diante desse caráter histórico da moral, cabe ao pensamento a tarefa de julgar se uma atitude é a mais adequada ou não a um determinado contexto social, buscando assim a transvaloração dos valores morais.
7. Como podemos julgar se ato corresponde ou não a um agir moral? Deste que parâmetros este é julgado?
O agir vai ser considerado moral quando o princípio que o orienta é composto pelos termos estabelecidos pela coletividade. Dessa constatação fica claro que o agir vai ser considerado moral ou não de acordo com a relação de concordância com as normas socialmente sancionadas certos ou boas. Ora, o contexto social em que nascemos é composto por um sistema de significados já estabelecidos por outros. De tal modo que desde cedo aprendemos os hábitos ditos corretos e os direitos e deveres que temos. Conforme atendemos ou transgredimos os padrões, a moral constituída, os comportamentos vão ser considerados como bons ou maus, morais ou imorais.
8. Quanto à autonomia individual, como esta deve ser vista desde a perspectiva do estabelecimento de preceitos morais válidos para uma coletividade?
Na compreensão freudiana, há uma tendência do homem em se aniquilar, pois ele sempre busca saciar todos os seus desejos. Nesse sentido, a falta é fundamental para que o indivíduo valorize o que já tem e enxergue na vida um sentido. Sendo assim, as normas morais limitam a liberdade do indivíduo no intuito de assegurar a preservação da própria vida humana.
9. Considerando o delicado tecido da moral, como podemos caracterizar a virtude?
Agir virtuosamente é agir moralmente. É a permanente disposição para querer e,como tal, fazer o bem e enfrentar os obstáculos que dificultem essa ação.
10. Em que consiste o imperativo categórico kantiano? Exemplifique.
Kant considerava que as normas eram exigências da própria natureza da razão, por isso denominou essas imposições de imperativos categóricos. A principal característica do imperativo categórico seria a universalidade, ou seja, o indivíduo só poderia tomar uma atitude caso ela pudesse ser repetida por todos os demais. “Age de tal modo que a máxima de tua ação possa sempre valer como princípio universal de conduta”. Em termos práticos, por exemplo, não roubar seria um imperativo categórico. Se um indivíduo rouba e as outras pessoas aceitam, todos podem roubar e, portanto, não há como manter a posse do que foi subtraído.
11. Como podemos identificar as colocações de Marx e de Freud quanto à moral? Desde que perspectiva estes autores partem na construção de seus pensamentos? Justifique sua resposta.
Esses pensamentos buscam resgatar a perspectiva de historicidade pela qual a consciência humana se constituiria e também apontam para um princípio de ação que se regeria pela materialidade dos contextos em não por imperativos categóricos, tal como Kant indicou.
Marx vai dizer que o homem é determinado pelas relações de produção que seriam muito específicas conforme o tempo e o lugar. Por esse tipo de análise ele observa que, onde existe sociedade dividida em classes, a moral da classe dominante predomina, impõe-se sobre a classe dominada e torna-se instrumento ideológico de dominação.
Freud, por sua vez, pauta-se pelo estudo dos sonhos, emoções e traumas. Ao levantar a hipótese do inconsciente, ele indica a existência de um mundo oculto. Um mundo da vida das pulsões, dos desejos, da sexualidade e agressividade. Esses elementos se encontrariam na raiz de todos os nossos comportamentos.
A aplicação dessas teorias abala as crenças racionalistas sobre o poder que o homem teria de controlar os desejos e tornar-se o centro de suas próprias decisões.
12. Como Nietzsche se posiciona frente à moral cristã? O que ele nos indica como sendo o modo desde o qual a lida com a realidade deve ocorrer?
Nietzsche critica o moral cristã por ser uma moral de rebanho, em que os indivíduos se deixam levar pela maioria e seguem os ensinamentos da moral tradicional de maneira acrítica. De acordo com o pensador, essa seria também a moral do “homem do ressentimento”, ou seja, daquele que assume a culpa e o pecado como características de sua natureza e por isso reprime seus impulsos vitais, sua bondade, sua criatividade, em nome da submissão à autoridade da religião e, por extensão, do Estado e das instituições em geral.
Na concepção nietzschiana, o homem deve compreender que os valores tradicionais da moral não são universais e nem estabelecidos de forma objetiva. São, antes, o resultado de um dado momento histórico, de uma cultura específica e de certos interesses. Foi por isso que ele enxergou a verdade como uma perspectiva, um ponto de vista. Assim, o filósofo defendia uma ética baseada na transvaloração de todos os valores, a fim de que o valor surgido em uma época específica não fosse eternizado. Então, o homem deveria assumir uma postura constante de rever e produzir novos valores.
13. Qual é a base desde a qual Habermas procura fundamentar sua ética? Existe uma ligação deste com algum traço do pensamento iluminista? Por quê?
O agir comunicativo é estruturante na constituição da ética habermasiana. A base é o diálogo que vai estabelecer consensos que, por sua vez, vão constituir normas para um determinado grupo, no qual, hipoteticamente, todos participaram igualmente. Habermas lança mão da razão iluminista na tentativa de ampliá-la: a racionalidade é “boa” desde que estabelecida por meio de argumentos e contra-argumentos.
Habermas e demais pensadores da corrente iluminista, vão estabelecer a razão como a norma que deve reger o comportamento. A diferença reside no fato de que para os iluministas o conhecimento é obtido pela racionalidade centrada no sujeito que através de sua própria estrutura cognitiva conhece algo; e para Habermas, o que deve existir é a intersubjetividade onde o conhecimento é alcançado pela racionalidade centrada na comunicação.
14. Como Descartes se coloca diante do ceticismo? Qual é o papel desta forma de pensar nas construções argumentativas de Descartes?
O ceticismo é uma posição filosófica que nega a possibilidade do conhecimento. Descartes não concordava com essa postura. Assim, adotou a posição cética e a levou às últimas conseqüências tentando mostrar que era uma postura insustentável. Ele, portanto, utilizou as concepções céticas como meio de fundamentar o cogito. Poder-se-ia duvidar de tudo, menos de que se pode pensar, pois a dúvida é uma forma de pensamento. Se há o pensamento, tem de existir o ser pensante. Dessa forma, a existência do ser pensante era uma evidência que resistia até a mais radical dúvida cética.
15. O que Descartes chama de res cogitans (cogito)? Cmo este conceito fundamenta a dualidade entre sujeito e objeto?
É a estrutura pensante, as estruturas cognitivas do homem. Esse conceito implica a existência de um sujeito que compreende e o objeto que é determinado. O princípio-guia de existência de algo será sempre determinado partir daquilo que o pensamento apreende e julga como tal. Tudo, inclusive o nosso corpo, seria resultado da apreensão dessa estrutura pensante. “Creio que o corpo, a figura, a extensão, o movimento e o lugar são apenas ficções de meu espírito. O que poderá, pois, ser considerado verdadeiro? Talvez nenhuma outra coisa que nada há no mundo de certo.”
Portanto, o argumento cogito apenas prova a existência de seu sujeito pensante e não possui nenhuma relação de certeza com o que compõe o mundo exterior.
16. Qual é o papel do chamado “Deus enganador” na argumentação de Descartes?
Descartes utiliza o “Deus enganador” como forma de sustentar seus entendimentos. O “Deus enganador” seria um ser todo-poderoso, que levaria o homem a enxergar a realidade de forma distorcida, de forma que não se pudesse ter certeza sobre nada. Ainda que esse ser existisse, ao duvidar daquilo que via, o homem estaria pensando, uma vez que a dúvida é uma forma de pensamento. Contudo, se há o pensamento, também há o ser pensante. A existência do ser pensante é, portanto, uma certeza indubitável, o que contradiz a postura cética.
17. Quais são as regras do método para o esclarecimento do conhecimento em Descartes. Comente-as mostrando em que consistem.
O primeiro passo que Descartes aponta é não tomar jamais coisa alguma por verdadeira a não ser que a conhecesse evidentemente como tal: quer dizer evitar cautelosamente a precipitação e agir com prevenção; e só incluir em nosso juízo o que se nos apresenta de modo tão claro e nítido que não haja como colocá-lo em dúvida.
O segundo passo indicado é dividir cada dificuldade para que possa ser examinada em tantas parcelas possíveis e necessárias para resolvê-las.
O terceiro seria dividir o pensamento de forma ordenada, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para pouco a pouco em direção ao conhecimento mais complexo.
E o último procedimento é fazer sempre levantamentos tão completos e inspeções tão gerais por ponde se possa chegar à certeza de que nada se omitiu.
18. Comente a dubiedade desde a qual Kant se relaciona com o dogmatismo. Em que sentidos este termo aparece nesse pensamento?
O conhecimento dogmático é aquele concebido de forma imutável e que por isso deve ser aceito sem questionamento. Kant criticava o conhecimento dogmático tradicional de metafísica, pois ele tem a certeza sobre as coisas, e, conforme o pensamento kantiano, não se pode conhecer a coisa em si, apenas o fenômeno. É preciso por conseguinte determinar os limites do conhecimento. Todavia, Kant estabeleceu bases para a compreensão da realidade que deveriam ser aceitas de forma dogmática.
19. Em que consiste a chamada revolução copérnica do pensamento? Relacione esta revolução com o papel da critica do pensamento deste filósofo.
Consiste numa inversão da questão tradicional da metafísica. No lugar de se procurar conhecer a ontologia das coisas, Kant defende que se examine antes o próprio conhecimento nas suas possibilidades de alcance. Dessa forma, o pensamento crítico permitia às pessoas distinguirem o que está ao alcance do conhecimento e o que está para além de nossas estruturas cognitivas: o pensamento especulativo estruturado a partir da perspectiva de tempo e espaço. Os conceitos só podem, em Kant, ser formulados com base na experiência e na racionalidade. O que não pode ser transformado em conceitos pode ser pensado, mas não transformado em conhecimento cognitivo. Por esse raciocínio, Kant conclui que a física e matemática são efetivamente ciência enquanto a metafísica é puro pensamento especulativo.
20. Como podemos entender o significado geral do princípio de utilidade para Stuart MiIl? Em que sentido, a felicidade aparece como critério da ação moral para os utilitaristas?
De acordo com Stuart Mill, o princípio do útil ou da máxima felicidade determina o valor moral de uma ação. Nele, uma ação é considerada correta quando proporciona a felicidade ao maior número de pessoas possível. Felicidade, nesse caso, significa o prazer e a ausência de dor; infelicidade, a dor ou privação do prazer. Sendo assim, as leis e os acordos sociais devem harmonizar os interesses do indivíduo com os da coletividade, buscando ao fim a felicidade de todos.
21. Quanto à felicidade, comente as indicações de Stuart Mill quanto a este tema e qual a importância da felicidade nas proposições deste autor.
O principio da máxima felicidade é universal. Mas Mill considera que apenas a partir de determinados contextos históricos é possível decidir como aplicá-la e definir que tipo de liberdade e direitos devem ser respondidos. Isto posto, a ação seria correta na medida em que tenta promover a felicidade. Ou seja, por felicidade, na aplicação utilitarista do filósofo, “deve-se entender o prazer e a ausência de dor; por infelicidade, dor ou privação de prazer.”
22. Em que sentido, Nietzsche empreende sua crítica aos conceitos tradicionais? O que este pensado mostra quanto à verdade?
Segundo Nietzsche, a moral tradicional desestimula a crítica e reprime os impulsos vitais, a vontade e a criatividade do homem. Por causa disso, sua crítica visa a recuperar os valores afirmativos da vida, estimulando o indivíduo a se valer de sua vontade, sensibilidade e criatividade.
Coloca-se contrário ao posicionamento tradicional dos filósofos de não problematizar a moral. Em vez disso, adota uma perspectiva histórica, procurando comparar as diversas concepções morais percebidas na cultura ao longo do tempo. Mostra, por exemplo, que os conceitos e valores tradicionais não são universais e nem estabelecidos objetivamente. Têm suas origens em um momento histórico determinado, em uma cultura específica e servem a certos interesses e propósitos.
Na visão nietzschiana, a verdade é um conceito fabricado, isto é, criado histórica e socialmente. Porém, ao longo do tempo, tal conceito tem sua origem “esquecida”, dando a impressão que ele é definitivo, científico.
23. Como Nietzsche se posiciona diante do cristianismo. Trace em linhas gerais a tese do pensador quanto a essa manifestação religiosa.
Nietzsche é incisivo no argumento que a moral cristã se caracteriza por uma “moral de rebanho”, em que as pessoas de deixam levar e seguem os mandamentos de uma moral tradicional de forma acrítica. Essa moral também seria própria do homem ressentido, que assume a culpa e o pecado com inerentes a sua natureza e por isso reprime seus impulsos vitais, sua vontade, sua criatividade, em nome da submissão à autoridade da religião e, por extensão, do Estado e das instituições em geral. Essa é também, para Nietzsche, a moral dos fracos que consegue se impor aos fortes exatamente através do recurso à culpa e ao remorso remartelados pela tradição a todos os indivíduos.
24. A partir do que Heidegger nos propõe no escrito intitulado Serenidade, qual seria de fato a diferença entre o pensamento que medita e o pensamento que calcula.
O pensamento que calcula é aquele que julga a realidade simplesmente a partir de números, portanto não refletindo sobre o sentido que há em tudo que existe. Daí, a aceitação de juízos do tipo “conceito dez e melhor do que três”. O pensamento que medita, ao contrário, tenta chegar à raiz dos acontecimentos e não apenas a resultados. Dessa forma, ele reflete e discute serenamente as conquistas do conhecimento. Não nega, por exemplo, o emprego dos objetos técnicos, mas não admite que eles determinem o agir humano. Heidegger critica o homem moderno justamente pelo fato de ter fugido à reflexão.
25. Qual é a atitude que Heidegger propõe que tomemos diante da técnica moderna? Por quê?
A proposta é de um agir sereno e que, mediante um pensamento que medita, saiba dizer Sim e Não. O sujeito não deve ser coptado pelas técnicas por acreditar que elas sejam boas ou ruins em si mesmas. Heidegger lembra que “para todos nós os equipamentos, aparelhos e máquinas do mundo técnico são hoje imprescindíveis, pra uns em maior e pata outros em menor grau.” Seria insensato investir às cegas contra o mundo técnico. A técnica tem seu potencial de uso, mas o resultado que ela traz vai ser sempre fruto de nossas ações, e não desejo de deuses e demônios. “Contudo, sem nos darmos conta, estamos de tal forma apegados aos objetos técnicos que nos tornamos seus escravos.”
Mas o filósofo também aponta que “podemos utilizar os objetos técnicos e, no entanto, ao utilizá-los normalmente, permanecer ao mesmo tempo livre deles, de modo que possamos a qualquer momento largar.”
26. Como podemos considerar a moral tradicional desde a perspectiva das indicações trazidas a nós por Freud? Em que medida este autor nos auxilia na constituição de parâmetros éticos mais correspondentes com a nossa realidade?
Freud mostrou a impossibilidade de se fundamentar os valores éticos somente na razão, como defendia a moral tradicional. Segundo Freud, a ação humana não depende totalmente do controle racional e das deliberações conscientes do ser humano, pelo contrário, é em grande parte definida por elementos inconscientes como instintos, desejos reprimidos e traumas, dos quais o indivíduo não se dá conta. Logo, a ética não pode desconsiderar os estímulos vindos do inconsciente porque, caso desconsidere, ela entrará em conflito com a própria natureza humana.
27. No que diz respeito à dimensão da falta, da necessidade de lidarmos com a não realização de nossos desejos, o que Freud nos mostra quanto a isso?
Um princípio-guia neste caso deveria ser a diferenciação entre problema e um dado da realidade: em Freud, é dado da realidade e não um problema a constatação que o homem é falta. É frágil. Um problema é passível de ser resolvido. Um dado da realidade não.
Nem sempre você pode ter aquilo que deseja, mas todo pensamento se moveria em direção ou em negação a algum desejo. O que seria autonomia nesse contexto. Ora, o homem não tem uma racionalidade estabelecida que o mova. Nós não somos tão senhores de nós mesmos para dominar nossas atitudes.
Deve-se reconhecer e saber lidar de forma não traumática, portanto, que o homem é falta: o fato de não podermos e/ou não conseguirmos concretizar todos os nossos desejos é algo normal. Posto que também não ter tudo o que desejamos é parte fundamental para valorizar o que temos.
28. Como Benjamim enxerga a perda da aura decorrente da reprodutibilidade?
Benjamim entende que a perda de aura das obras de arte pode se tanto positiva quanto negativa. É positiva porque democratiza o acesso do público às obras. Hoje, por exemplo, as pessoas podem contemplar quadros e esculturas dos mais diversos museus do planeta ou assistirem a filmes sem terem de sair de casa. É negativa porque destrói a capacidade de julgamento de espectador, fazendo-o encarar a cópia como original. Abre-se assim o caminho para a manipulação das massas, tal como ocorreu na Alemanha durante o nazismo.
29. O que o pensador demonstra como sendo traço característico da percepção do homem moderno?
O foco da percepção hoje seria tornar o efêmero em eterno. A percepção, em Benjamin, é algo que acontece de forma muito diferente desde uma perspectiva de uma obra original e uma outra reproduzida. “Retirar o objeto do seu invólucro, destruir sua aura é característica de uma forma de percepção cuja capacidade de captar ‘o semelhante no mundo’ é tão aguda, que graças à reprodução ela consegue captá-la até no fenômeno único.” Benjamin recupera ainda que o que “era comum na forma mais primitiva de inserção da obra de arte no contexto da tradição se exprimia no culto.” Era, enfim, a unicidade da obra ou, em outras palavras, sua aura.
30. No texto “Pequena história da fotografia” vemos o impacto da descoberta de Niepce e Daguerre para a pintura. Como você enxerga, desde o desenvolvimento da questão proposta pelo autor, os processos contemporâneos de reprodução e transmissão de informações, imagens, conhecimentos etc. Posicione-se, mas não perca de vista as proposições do autor em seus textos.
Walter Benjamin morreu em 1940 e, portanto, não conheceu as inovações tecnológicas que, depois da fotografia, acentuariam ainda mais a reprodutibilidade técnica como a televisão, os satélites e a Internet. Por meio da transmissão via satélite, por exemplo, um brasileiro de um bairro periférico pode acompanhar, em tempo real, o fim de uma copa do mundo que ocorre na Europa, bastando-lhe para isso um simples aparelho de TV.
O que dizer da Internet? Uma vez conectado, qualquer indivíduo é capaz de visualizar belos locais do planeta ou contemplar quadros e esculturas de museus da Europa, sem sair de casa. As informações não faltam e elas estão disponíveis em sites, jornais on-line, blogs. A Internet inclusive abre caminhos para que novas compreensões sobre a realidade sejam agregadas às já existentes, permitindo conseqüentemente a ampliação do saber. Assim, é inegável que a reprodutibilidade contemporânea não só democratiza o acesso, como ajuda a produzir conhecimentos.
Porém, Benjamin já dizia em sua época que a reprodutibilidade fazia o homem preferir o semelhante ao único, constatação que é reforçada na contemporaneidade. O parecer hoje se tornou norma. Via mídia, políticos incorporam personagens e pregam valores que não possuem na tentativa de conquistar o eleitorado. Empresas, por sua vez, poluem o planeta, mas espalham imagens em jornais, rádio, televisão e outdoors defendendo a preservação ambiental.
Outros comportamentos são também notórios no mundo contemporâneo: às vezes, o sujeito conhece muitos detalhes de uma região longínqua devido as fotos que contempla ou aos vídeos que vê, no entanto é incapaz de mencionar pormenores simples de sua própria vizinhança. Da mesma forma, alguns optam por assistir ao show de um cantor em DVD, mesmo que a entrada seja gratuita e o evento ocorra em um local próximo. A reprodutibilidade, então, democratiza, mas influencia negativamente a percepção humana.
31. O que Foucault nos indica como sendo “moral”? Relacione a moral com o que o autor nos indica como modo de sujeição.
Para Foucault, “moral” é um conjunto de valores e regras de ação que são propostas aos indivíduos e aos grupos pela família, pela escola, pela igreja etc. Entretanto, por “moral”, o pensador entende também o comportamento real dos indivíduos em relação às regras e aos valores que lhes são propostos, isto é, significa a maneira pela qual as pessoas se submetem mais ou menos completamente a um princípio de conduta, pela qual elas obedecem ou resistem a uma interdição ou a uma prescrição.
Foucault diz que, para ser considerada “moral”, uma ação não deve se reduzir a um ato ou a uma série de atos conformes a uma regra ou lei. A ação igualmente exige do indivíduo uma constituição de si enquanto “sujeito moral”. Nesse caso, o indivíduo define sua posição em relação à regra e estabelece para si um modo de agir que, no seu âmbito pessoal, será moral.
O que o autor compreende como modo de sujeição é a maneira pela qual o indivíduo se sente obrigado a colocar uma regra moral em prática. Por exemplo, o sujeito pode ser fiel no casamento porque esse é um princípio estabelecido no grupo do qual ele participa, porque o sujeito se sente herdeiro de uma tradição espiritual e quer preservá-la ou porque ele deseja dar à sua vida um caráter de perfeição.
32. Comente a importância da história da moral para este pensador, articulando a resposta com a discussão da moral na antiguidade.
O método de pesquisa arqueológico estrutura o pensamento de Foucault. Essa opção metodológica de estudo tema como resultado e principal desafio a necessidade de uma reinterpretação da história em busca de se revelar quais forma os pressupostos e elementos subjacentes ao saberes de um determinado período histórico e relativizá-los no tempo e no espaço. A história da moral, aponta Foucault, deve ser vista a história das “moralidades”, ou seja, “aquelas que estuda em que medida as ações de indivíduos ou grupos são ou não conforme as regras ou os valores.
Essa historiciação dos saberes vigentes vai apontar a moral como uma forma de disciplinamento que vai servir como controle social e pessoal. A moral vigente estaria então permeando os saberes legitimados e constituindo as concepções de subjetividade da formação do indivíduo e formas de terapia. O período helenístico, especialmente o epicurismo e o estoicismo, teve importância fundamental nesse sentido. Por exemplo, a moral estóica, em particular, teria sido uma forte influência para a moral cristã.
Foucault indica que as reflexões morais na antiguidade grega teriam sido muito mais orientadas para as práticas de si do que para o estabelecimento do permitido e do proibido bem como de instâncias encarregadas de vigiar a prática das regras para avaliar os castigos que sancionariam as infrações cometidas.
Admitindo que a moral cristã foi fortemente delineada pela moral grega, voltada para os cuidados de si, a questão não seria mais saber o que foi ou não tomado emprestado pelo cristianismo e o que acrescentou por conta própria. A proposta de Foucault é perguntar “de que maneira, na continuidade, transferência ou modificação dos códigos, as formas da relação para consigo foram definidos, modificadas reelaboradas e diversificadas.”










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