“Temos muitas possibilidades, mas pouca vontade de agir” September 25, 2007
Posted by Ezequiel Vieira in : e-gov, economia, entrevistas, eventos/debates, inclusão digital, internet, política, tecnologia , trackback[Seminário A Constituição do Comum - blog] As palestras da parte da manhã devem ter acabado agora. Talvez, por essa última edição do seminário ter menos dias, dois a menos do de Vitória, por exemplo, se tem vários temas para serem colacados na mesa já no primeiro dia de evento. A programação tá lá no site do Ministério da Cultura - novas tecnologias de comunicação e informação, economia do conhecimento, políticas de comunicação e informação e inclusão digital.
Mas muita calma nessa hora. As discussões apresentadas nas mesas desta e das outras três edições do seminário serão publicadas em livro e na revista Global/Brasil. Assim talvez seja mais fácil digerir, com rabiscos, anotações e leituras mais pausadas, as idéias apresentadas que, só aqui em Vitória, contou com 30 palestrantes.
Em horários diferentes, dois professores daqui da Ufes, Fábio Malini, pela manhã, e José Antonio Martinuzzo, pela tarde, participam hoje como palestrantes.
Essa mini-entrevista foi feita por email com Martinuzzo ainda no sábado. De tudo o que foi programado para esse primeiro dia, ele vai palestrar sobre políticas de informação e comunicação com enfoque para o e-gov:
1. Em que medida o exercício de uma “Constituição do Comum” é inovador em prática/projeto política?
Vivemos uma nova realidade em termos de relações socioeconômicas, culturais e políticas. O uso intensivo de tecnologias de comunicação e informação e capitalismo global são algumas das marcas desse tempo, que exige novas formas de atuação e articulação política.
Novas oportunidades e desafios se colocam em todos os aspectos de nossa vida, numa realidade ainda crivada por velhos problemas, como empobrecimento, violências, fome, miséria, analfabetismo, mortalidades, guerras, desamor, falta de compaixão… Quem sabe, nesse mix de novidades e heranças, boas e ruins, um novo movimento de emancipação coletiva se constitua para mudar a feição da vida? É preciso, como demarcou Gramsci, unir o pessimismo da razão com a esperança da vontade.
2. Por que a produção comunicacional parece adquirir papel de centralidade nesse projeto?
Mesmo na vivência mais cotidiana, vivemos um intenso processo de troca ou acesso a conteúdos comunicacionais. Publicidade, jornalismo, entretenimento, mensagens eletrônicas etc. etc. As teias comunicacionais articulam um modo diferente de viver nestes tempos de velocidades, novidades, links, interfaces, consumismo, hipervalorização da imagem… Se em nenhum tempo da nossa história se pôde fazer política sem comunicação, muito menos agora. Resta dizer que o processo de comunicação contemporâneo diferencia-se também por sua complexidade.
Em seu mestrado e doutorado, ele estudou o modo como tem se sido as práticas dos governos no uso da internet, o chamado Governo Eletrônico. No mestrado “A política na rede - tecnologias de comunicação e reprodução do paradigma de mercado“ ele se dedicou à análise do site de prefeituras e no doutorado a temática se extendeu ao estudo dos governos que compõem o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) - “Comunicação, Novas Tecnologias e Informacionalização da Política: o Governo Eletrônico no Mercosul”.
3. Até que ponto as TICs [teconogias de comunicação e informação] vem sendo usadas pelos movimentos sociais como instrumento de mobilização política? Quais os principais avanços e desafios podem ser identificados?
Creio que as TICs sejam potencialmente revolucionárias na capacidade de dispor conteúdos para além da pauta hegemônica, conectar pessoas mundo afora, reforçar comunidades, contradizer “verdades”, articular movimentos etc. Mas acho que vivemos um paradoxo: temos muitas possibilidades de ação, mas pouca vontade de agir. Parece-me que falta projeto de transformação capaz de mobilizar a maioria. Vive-se um desencanto com a política de verdade, aquela, nas palavras de Milton Santos, capaz de pensar as mudanças e criar as condições de torná-las efetivas.
Esse déficit gera a pauta da “política da vida” (Bauman), em que a nossa agenda é sobreviver, cuidar do próprio destino, como se fosse possível estar insulado num oceano de problemas coletivos. De qualquer maneira, toda revolução só se faz por processo e por educação. Ter tecnologias que somam e potencializam esse projeto já é algo a se destacar. Ter movimentos sociais e articulações várias usufruindo dessas tecnologias é um bom sinal. É mostra de que em uma realidade hegemônica renovada em suas estratégias, novos caminhos contra-hegemônicos se estabelecem.
4. Qual papel o e-gov pode ter na prática da “Constituição do Comum” e, em que medida, isso vem acontecendo de fato?
O e-gov é a porção digital da ação político-governamental, evidenciada, no mais das vezes, pelos portais públicos. Infelizmente, usam-se novas tecnologias para reproduzir velhos paradigmas de clientelismo e propagandismo político-eleitoreiro, somado a novidades como cidadãos-clientes, criadas pelo ideário neoliberal. A sociedade civil ainda não observa as possibilidades das TICs para reconstruir a relação sociedade-governo. Enquanto isso, o conservadorismo vai fazendo cultura de governança eletrônica para manter o status quo.
Acesse também
24/09 - Quando a subjetividade deu sentido às máquinas














Comments»
Valeu pelo post! Ótimo conteúdo! Um dos nossos grandes desafios hoje, é esse mesmo: contruir o comum. Com tanto tempo de individualismo é difícil pensar e fazer o comum - mas parece que as grandes possibilidades só podem ser construídas a partir dessa vontade de agir sobre uma base comum, não é?
Obrigada.
Um abraço,
Mary
Vc não vai comentar sobre o lançamento do Record News aqui no seu blog?
Bem que gostaria, mas não acompanhei esse lançamento o bastante para comentar por aqui
Já recebi em meu Rss teu comentario sobre. Imprimi, e amanha comento lá em teu blog.
IURD sempre é uma boa discussão….