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Quando a subjetividade deu sentido às máquinas September 24, 2007

Posted by Ezequiel Vieira in : capitalismo cognitivo, economia, eventos/debates, redes, web 2.0 , trackback

[Seminário A Constituição do Comum - blog] - Amanhã começa em Belém a quarta e última edição do seminário. Das discussões que aconteceram aqui em Vitória foram oito relatos publicados. Acho que aquele que chegou mais perto do que foi discutido por aqui foi o post, abaixo, “A fuga das fábricas, o encontro nas redes“. A hipótese é a de que vivemos em um novo tipo de sociedade. Nesse novo cenário o conhecimento não se voltaria mais para que as máquinas se tornem mais dinamizadas e produtivas na intermitente missão de se produzir riqueza e rentabilidade. 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=VTgeNw1guBs]

Esse modo alheio ao que a subjetividade, a experiência de vida, a singularidade (…) têm a apresentar como inovação ao trabalho estaria superado. A produção agora passa a ser chamada de trabalho imaterial. O conhecimento não é mais para dinamizar a produção mecanizada. É sim para se produzir mais conhecimento. A informação é matéria-prima e “produto final“.

  • Acho que ainda não se tem um filme como sátira ou mesmo como exemplo. Mas o modo livre, leve e solto de se trabalhar no Google, talvez seja o melhor exemplo desse novo paradigma.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=LWvjOhc5Xuw]

Eis a postagemA fuga das fábricas, o encontro nas redes“:

Ele não estava por lá. Mas foi e será uma influência determinante do seminário que começou hoje pela manhã na Estação Porto. A começar pelo nome do evento - A constituição do comum. Foi dessa forma que Antonio Negri intitulou sua apresentação no ”II Seminário Internacional Capitalismo Cognitivo - Economia do Conhecimento e a Constituição do Comum” que aconteceu em outubro de 2005. A fala de Negri acabou por delinear a temática das discussões ao longo desse evento. Acesse mais na postagem A liberdade que constitui.

A apresentação da manhã de hoje contou com a presença de Giuseppe Cocco e Maurizio Lazzarato. Cocco e Negri comungam assinaturas em vários artigos. O livro Glob(AL) [Biopoder e luta em uma América Latina Globalizada] também é o resultado dessa, digamos assim, camaradagem. Quanto a Lazzarato, não sei se ele assinou artigos com Negri, mas posso afirmar categoricamente… que o livro Trabalho Imaterial é de autoria deles. Acesse no blog O Comum o perfil de todos os palestrantes.

 

  • Da direita para esquerda: Lazzarato, Cocco, e Ruth Reis  - secretária de comunicação de Vitória

O meu relato vai se restringir à fala de Giuseppe. Ele é um italiano que fala português o quanto sonho um dia falar em inglês. Lazzarato falou em francês e não consegui encontrar a freqüência em que tradução simultânea era feita. Depois pego as anotações da Juliana pra saber o que ele falou. Deve ser sido qualquer coisa muito interessante mas que para mim tinha quase sempre a mesma pronúncia.

Mais que de produção, é preciso falar de co-produção de serviços

Cocco argumentou que a cultura deve ser pensada a partir do conceito teórico-político de uma constituição do comum. Nesse sentido é importante rever as conceituações que se tem sobre trabalho. O que acaba indo muito ao encontro do pensamento negriano de constituir uma teorização política de léxico renovado. Uma leitura política do presente vai constatar que as relações de trabalho se dão de forma cada vez mais difusa e socializada. “O trabalho se dá em redes que desenham a cidade de forma muito parecida com o que acontece com as redes virtuais na internet”.

1. A cultura é a condição e a dinâmica do trabalho. Os setores industriais não funcionam mais do mesmo jeito. Os atuais estatutos de trabalho estão cada vez mais precarizados.

Cocco lembra que a produção não é mais individual ou industrializada - mas o que também não implicaria o desaparecimento da indútria [Manuel Castells frisa bastante que a indústria se reconfigura e continua tendo importante papel no desempenho da economia].

A lógica de trabalho agora se caracterizaria pela

potência relacional, comunicativa e cooperativa entre sujeitos sociais. Seu locus de manifestação ocorre no conjunto de redes sociais territorializadas nos espaços urbanos, como também nas redes (sócio-técnicas) desterritorializadas nos espaços de não-lugares (1).

A produção do imaterial passa a ser a nova forma de valorização do trabalho. “A relação entre homem e natureza se dá entre sujeitos sem que eles estejam necessariamente  no chão de fábrica. A tônica comunicatica é o que determina as relações de trabalho no que chamamos de nova economia. A economia pós-industrial”.

Cocco é insistente quando diz que o trabalho é cada vez mais intersubjetivo e não mais individual. “A reconfiguração relação entre homem e objeto é o precisamos problematizar.”

2. A relação salarial não dá conta mais da mobilização do trabalho em geral.

3. Cada vez mais a nova organização da economia indica que a relação entre produção e consumo não é mais aquela de antes. O consumo deve ser pensado como produtor de riqueza e a circulação como transformadora do produto.

A empresa, e não mais a fábrica, se moderniza e se modifica em uma dinâmica de redes. Se a questão do trabalho assalariado não é mais mecanismo fundamental de integração social, Cocco destaca que temos de pensar então esse mesmo elemento como ponto de partida para que uma lógica de inclusão se estabeleça. “A cidadania não é mais o resultado a ser alcançado, mas o ponto de partida para que o comum se constitua e haja na sociedade uma mobilização produtiva”.

O que fazer? A democratização para o crescimento e o crescimento para algo

A constituição da cidadania seria a condição pressuposta para uma política econômica que, digamos assim, esteja de acordo com a lógica de produtividade de riqueza hoje. Isso parte da constatação, um tanto óbvia a partir da discussão feita no seminário, de que “desenvolvimento econômico que não debater a nova economia, que se pauta pela produção imaterial, não pode ser chamado de desenvolvimento econômico.” - frase de Luiz Fernando Barbosa que tanto gosto de repetir.

“Tecnologia sozinha não faz política” (3). Necessidade da universalização do acesso à informática

  • Trecho da apresentação de Giuseppe

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=yFk9ariuNBk]

A fala de Giuseppe se encerra com uma questão em aberto e ao mesmo tempo retórica. De que forma se pode fazer com que a sociedade seja cidadã, e por fim produtiva, se de forma maciça ela não tem acesso aos meios de produção para fazer circular o seu trabalho na lógica de redes, uma vez que - como tanto frisa Vilches com boa dose de ceticismo - a internet traz uma técnica com grande horizontabilidade e potencial democrático, mas a intenção política é pré-requisito espinhal para que essa virtualidade democrática se materialize (ou se atualize - para se opor ao conceito de virtual)

E é aqui que a promoção e debate sobre programas públicos de acesso à internet, tais como a Rede Metrovix, se constitui algo estratégico e mais do que necessário.

Acesse também

- Entrevista de Giuseppe Cocco ao Instituto Humanitas Unisinos - ‘Já saímos da sociedade salarial. Mas isso não tem nada a ver com o fim do trabalho, nem com o fim do emprego’.

- Matéria do Valor Econômico (12/07/07) - Era digital gera riscos trabalhistas às empresas. “As leis que regulamentam horas-extras, férias, intervalos para refeições e todas as outras regalias da vida de trabalho civilizada, não se aplicam a nós [...]. À medida que a conectiviadade se alastra, descendo os escalões hierárquicos, espera-se que mais trabalhadores trabalhem sem remuneração: em casa, no carro ou na praia - e em algumas condições que podem lhes dar o direito de buscar seus direitos na Justiça [...].’As leis foram escritas antes que o local de trabalho passasse a ser em qualquer local do mundo’, diz Tanembaum. Se funcionários cobertos pela legislação salarial e horária trabalharem um dia suficientemente longo enquanto estiverem de férias, poderá até mesmo ter necessidade legal de que seus chefes imediatos se certifiquem de que seus suborninados fizeram suas refeições e fizeram pausa para o descanso, diz ele. ‘A coisa realmente pode começar a espapar do controle.’”

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Comments»

1. “Temos muitas possibilidades, mas pouca vontade de agir” « Polimidia - September 25, 2007
[...] 24/09 - Quando a subjetividade deu sentido às máquinas [...]
2. Natália Amorim - September 29, 2007
Os discursos sobre a “Periferia” – a coisificação da criação artística e cultural que assola o País.
Natália Amorim

Abarcando a muitos com alcunhas como “estética da periferia” e “gueto globalizado” os discursos que roubam a fala e mimetizam o conhecimento de parcela dos nossos criadores é hoje um grande negócio para a economia cultural.

Emparelhar a produção dos criadores, artistas e pensadores, que não vivem sob o teto dos bairros da elite, classificando essa produção com termos como “estéticas das periferias metropolitanas”, “gueto globalizado”, “constituição do comum” e outras alcunhas, parece ser a nova moda da mídia e acadêmicos. Os que assim adotam tais denominações, longe de conceber esses espaços de convivência plurais (homem/mulher/criança/bicho/planta/ construções) em sua heterogenidade, singularidade e afetos, procuram abarcar em uma linguagem que caí muito bem ao gosto do “statos quo” de uma elite cultural e intelectual que pesa, mede, cartografa, mapeia e pesquisa, tornando “coisas” a todos os que não habitam nos “bairros nobres” das metrópoles, estes sim, espaços identificados singularmentes em seus nomes, cantados em prosa e verso, e dramatizados em cadeia nacional, cujo o imaginário e a singularidade parece coabitar e pertencer apenas aos que neles o partilham como morada.

Quando a palavra “periferia” não havia caído no gosto duvidoso da mídia e da elite artística e cultural nominava-se aos bairros afastados do centro das capitais e cidades pelo seu nome, eram espaços urbanos que existiam em suas singularidades: Neves, Coqueiro, Marambaia, Ramos, Barreto etc. Hoje, todos esses espaços, legitimados em sua história e afetos foram jogados no lugar comum de “periferia”, então criou-se uma “estética da periferia”, o que se tornou mais um produto a ser explorado de forma comercial, pela mídia, intelectuais, acadêmicos e produtores. Exposições, programas de TV, Seminários etc. e o mais interessante é que são em sua maioria concebidos e produzidos por pessoas que não moram nela.

Sob o título Constituição do Comum – Cultura e Conflitos do Capitalismo Contemporâneo, esteve em Belém um Seminário do programa Cultura e Pensamento do MINC - Ministério da Cultura tendo como curadores Ivana Bentes e Giuseppe Cocco em parceria com centros de pesquisas, e Universidades UFRJ e UFPA. O título Constituição do Comum que no folder se propunha a abranger questões como : Movimentos, Migrações, Racismo, estéticas das periferia metropolitanas, políticas da expressão, funk, hip-hop, tecnobrega, quilombolas entre outros, soou estranho e foi ininteligível a princípio, a exceção dos acadêmicos participantes que compartilhavam da mesma linha de pensamento – mais tarde explicada ao público por se tratar de um termo criado por Antonio Negri e adotado como condutor do que ali ia se debater. Nas mesas compostas em sua maioria por acadêmicos, o que se ouvia era a inexpressiva produção dos debatedores que não alçavam vôo além do que a simples constatação, perdidos em sua verborragia vazia e sem sentido de uma produção alienada alheia a práxis, com exceções de poucos detentores do real conhecimento, o que conjuga reflexão e ação, que ali estavam como Zélia Amador, firme em sua luta pelas cotas para negros, sabedora ela na sua própria pele do que fala e pratica.

Temas como a busca eterna da identidade perdida , questão que nossos acadêmicos que versam sobre cultura adoram verborragir, e dar voltas e mais voltas sem sair do lugar, os mesmos que partilham e importam idéias e conceitos como o “gueto globalizado”, a “estética da periferia” e a “Constituição do Comum”, já que hoje, os mesmos que adotam tais termos, por vezes vivem em espaços perdidos de seus sentidos simbólicos e afetivos se expressos numa porta antiga, numa madeira ou grade descascada, e numa rua de areia, já que os espigões proliferam pelos bairros centrais das metrópoles, para onde anseiam ir as massas da elites econômicas, culturais e intelectuais do Brasil. A mesma elite que faz com que a UFRJ, a segunda maior universidade do país não tenha bandejão, mas apenas restaurantes internos particulares.

Na ausência dos reais representantes dos temas ao qual o evento se propôs a debater, tecnobrega, funk, hip-hop, produção de música o que se ouviu foram as falas desapropriadas que partiam apenas da observação passiva e afastada, que coloca-nos a todos como “objetos de estudo” e nos “coisifica” e “periferifica”. Ecos distantes angustiantes e angustiados, no entanto cientes do seu papel de oferecer a um público “diverso” o pensamento da produção da elite acadêmica e intelectual do país.

Os discursos culturais – reflexos de uma história que ditou a produção cultural, e tem ditado as políticas públicas partindo do monopólio da região Sudeste, ou Sul maravilha, ainda tenta perversamente enquadrar de forma uniforme a riqueza da criação artística e cultural do país, servindo-o aos jogos do mercado, ao neo-liberalismo, e ao bolso da pequena elite cultural do país que se beneficia dos que não conseguem ou se negam a entrar na máquina criada, e buscam de uma outra forma compartilhar e expressar criações, idéias e arte. Chegando hoje ao absurdo de captarem recursos, e fazer projetos culturais para falar destes, apropriando-se da criação e idéias de um cem número de criadores para mimetizar o conhecimento.
Com propostas de sair de um mar de anônimos os grupos de criadores, e artistas, que se espalham pelas cidades são agora alvos de produtores e captadores de recursos para que surjam como pessoas físicas e jurídicas, enquadrados num modelo instituído pelas pessoas pensantes que formularam e formulam as políticas públicas e privadas do estado e do mercado hoje no país , agora re-designado de “capitalismo cognitivo”.

O que representa realmente o “gueto globalizado”? O que se entende por democracia? E as quantas anda a amnésia coletiva da elite econômica, cultural e artística, que dá as coordenadas no país? A “Constituição do Comum” também pode designar a produção acadêmica do país?

Obrigados a ouvir frases como “vivemos no capitalismo e não tem jeito mesmo”, os “grupos artísticos tem que se adequar” saímos do Seminário com um sentimento estranho, que hora nos desnorteia, mas também nos fez mais solidários, nós que estávamos ali presentes, co-partícipes do que há por vir, e pelo respeito de podermos falar de nós mesmos, de nossos símbolos e ícones, do nosso jeito e formas de ser, pensar, criar, e se expressar, respeitando os construtos mentais diversos que constituem o que se chama Brasil, oriundos de formações étnicas e geográficas múltiplas. Respeito ao nosso direito de ainda sermos solidários e cooperativos e também respeito ao nosso direito de sermos utópicos, e de nossa luta por não sermos coisificados e legados ao lugar Comum.

Natália Amorim
28/09/2007 - Belém – Pará – Amazônia – Brasil

Natália Amorim é cenógrafa, figurinista, arte-educadora, especialista em arte-terapia; Técnica em gestão cultural da Secult –Secretaria de Cultura do Estado do Pará, é ainda poeta e fotógrafa. Atual moradora do Bairro da Marambaia em Belém-PA.

3. Ícaro Maia - October 22, 2007
É a transformaçao de tudo em mercadoria… Inclusive a subjetividade.
4. Ezequiel Vieira - October 27, 2007
Ícaro, como ficou claro na postagem, vejo mais como uma mutação do trabalho. Ter rompido esse padrão produtivo mecanizado, fabril, massificado (…) acredito que tenha sido uma das grandes conquistas das lutas de trabalhadores que se intensificaram a partir dos anos 70

AS TICs fez com que, potencialmente, toda a sociedade seja posta a produzir e elas determinam, inegavelmente, a forma e o q se entende por trabalho hoje

Entendo que a mercantilização de que vc menciona exista sim, mas como uma forma de tentar voltar ao controle q se tinha sobre os trabalhadores antes da chamada “fuga das fábricas”. Uma vez que tenha “dado abertura” para que isso acontecesse, é muito mais difícil para o tal do capital controlar esse excesso produtivo, a subjetividade de que falamos enfim

“A subjetividade no capitalismo pôde (e pode) criar situações imprevisíveis e soluções alternativas fora do imaginável.”

Mas hein, tem certeza de que vc leu mesmo toda a postagem?


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