“A televisão é controle de subjetividade”, diz filósofo May 24, 2007
Posted by Ezequiel Vieira in : capitalismo cognitivo, cibercultura, comunicação, economia, entrevistas, internet, mundo afora, política, sociedade midiatizada, televisão , trackback[Seminário A Constituição do Comum - blog] - Vamos de entrevista. Não peguei as anotações de Juliana sobre a fala em francês de Lazzarato, mas ela fez uma entrevista com ele para o blog O Comum.
Eis o resultado
A palestra de Maurizio Lazzarato, filósofo e grande companheiro ideológico de Antonio Negri, foi prejudicada por alguns “probleminhas” técnicos como a falta do funcionamento da transmissão da tradução simultânea.
O francês se tornou um obstáculo no entendimento da discussão sobre a nova relação de trabalho a partir do conhecimento cognitivo.
Na tarde da última segunda, 21, Lazzarato aceitou me conceder uma entrevista após a apresentação de Bárbara Szaniecki que discursava veemente sobre a importância dos cartazes para a construção de mídia alternativa.
O cenário foi área livre externa ao Estação Porto. Sentamos e conversamos sobre a nova relação de trabalho, as dificuldades de se incluir as pessoas no processo de produção e não só de recepção do conhecimento e não poderia faltar a tão complicada vitória de Nicola Sarkosy, último campeão das eleições presidenciais francesas.Foram 30 minutos em “pleine air”, ao ar livre, de muita compreensão de idiomas. Muito à vontade, ficamos “bavardeando”.
Lazzarato demonstrou uma simplicidade em seu modo de agir, tão acessível, nem parecia querer provocar o distanciamento imposto pela maioria dos grandes intelectuais da academia.
Fale sobre a nova relação de trabalho no capitalismo, levando em consideração que nós, após esta relação de imaterialidade, passamos a trabalhar o tempo todo?ML: A atividade produtiva, hoje, engloba vários tipos de relações, não somente as de produção como era conhecida antigamente. Esta perpassa pelas relações sociais, de comunicação e de conhecimento. E são todas estas relações juntas que produzem a riqueza. Por outro lado, existe uma novidade na forma de controle ou hierarquização na relação de que acompanha este processo de precarização do trabalho.
Ao mesmo tempo, a nova relação de trabalho cria dois expoentes: o primeiro é o trabalhador colaborativo, que participa dos lucros da empresa e tem salário fixo, e o segundo é a fragmentação do mercado que provoca desemprego, pobreza e grande diferença social.
É linda esta idéia de que o trabalho é a cooperação, o compartilhar do conhecimento. No entanto, existe a pobreza, a super população, a grande diferença social.
Outra questão é que a subjetividade do trabalho não está incluída em nenhum estatuto.Como você imagina esta relação de trabalho daqui a cinco anos?
ML: É difícil isto. Eu imagino que o processo de precarização vai aumentar. E para nós termos acesso a seguro saúde, entre outros. Nós teremos que pagá-los, pois as relações de flexibilização do trabalho não vão tornar mais estes direitos do trabalhador obrigatórios.
A redistribuição será cada vez mais desigual e o Estado terá menos dinheiro.
Outro fator nesta nova relação de trabalho é que as pessoas vão trabalhar mais por medo de perder seus postos de trabalho.A relação entre o poder e o saber, com o capitalismo cognitivo mudará ou diminuirá a exclusão social?
ML: Isto depende. A princípio vai aumentar a exclusão social. Contudo, há um fenômeno mais importante no capitalismo cognitivo que passa com a classe média. Esta entra em crise. A distribuição de renda se torna mais desigual. Uma minoria da classe média alcança as classes ricas, enquanto a maioria fica muito mais pobre . Com isto, a classe média diminui e a exclusão social aumenta.
Com a produção colaborativa, as pessoas terão mais acesso ao conhecimento e às novidades?
ML: As pessoas com as suas experiências de vida, seus saberes populares já tem acesso ao conhecimento existente. O acesso a este conhecimento pronto pode ser viabilizado pelo oferecimento dos dispositivos e ferramentas de mediação do usuário. Contudo, a única preocupação se torna adequar o conhecimento como um produto a ser consumido. Com a produção colaborativa, este acesso vai aumentar.
No entanto, a questão mais importante é pensar como este cidadão, vai efetivamente participar desta produção. O que seria necessário para mudar os meios de produção deste conhecimento e não só se preocupar com o consumo/ recepção.Qual é o papel da comunicação no cenário de capitalismo cognitivo?
ML: É muito importante. Inclusive é responsável pelo controle e produção da subjetividade das pessoas. E a televisão é, sem dúvida, o veículo mais importante nisto, até mesmo que a Internet. É uma grande ferramenta de poder político e controle. Por exemplo, na Itália, o Berlusconi é dono de emissora de tv. Recentemente, ele comprou o formato “endemol”, responsável pelas produções de reality shows como o Big Brother. Além de ganhar dinheiro, ele tem acesso à produção deste conteúdo que é repassado, ou seja, ele se torna produtor de conteúdo também, não apenas transmissor.
Como é possível formar uma cultura comum sem ser uniforme?
ML: O modelo de uniformização é o da televisão. Uma cultura do comum é a que permite a singularidade, multiplicidade, efetiva produção e não só reprodução do conhecimento.
Como a cultura pode chegar a ser uma esfera de poder, no patamar da economia?
ML: Para mim, a cultura está integrada a economia. Pouco a pouco vem ganhando mais importância nas discussões sociais, por exemplo. E até mesmo é uma das industrias que mais crescem e agregam trabalhadores.
Você é a favor ou contra Sarkosy? O que representa a vitória dele para o acesso a cultura, depois do episódio de novembro de 2005 com os imigrantes?
ML: Eu sou contra. O Sarkosy adota uma política neoliberal. Ele vê a cultura como algo patrimonial.
No episódio com os imigrantes, eu penso que maioria da França estava com ele. E a sua postura junto à periferia, lhe garantiu muitos pontos favoráveis. Com esta política de afastamento da parte “suja” da qualidade de vida do francês. E isto já deve ter sido pensando com foco na campanha eleitoral. Até porque seu objetivo central é a direita, a identidade nacional e medidas para controlar esta questão da imigração. Sarkosy chamou o pessoal da periferia de “sujos”, que representa uma grande ofensa. E a maioria da França estava de acordo. Ele ganhou com 54%, mas eu penso que mais de 60 % das pessoas concordavam com aquela atitude.
Esta luta contra a periferia não passou de uma estratégia, uma maneira de ganhar mais pontos na campanha eleitoral. A França tem medo da periferia, pois eles representam o desconhecido. E Sarkosy soube jogar bem com este medo dos franceses. A crise na França leva muitos franceses a acreditarem nesta política de que tudo é culpa da forte imigração.
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