Negri e Cocco: O moralismo impotente e a cantilena sobre a verdade do poder (atualizado em 28/02) February 24, 2007
Posted by Ezequiel Vieira in : política , trackback
Sobre Negri e Giuseppe Cocco, pode-se dizer que eles expressem uma ideologia de esquerda. Mas eis que surge uma diferença espinhal. Eles pensam. E o maior de todos os absurdos ainda é possível: o pensamento negriano também tem projeto político. Projeto esse que tem a pretensão de estabelecer uma relação alternativa e não uma dialética ao capitalismo.
Fiquei de fazer uma resenha sobre o livro feito pela dupla, Glob(AL) Biopoder e luta em uma América Latina Globalizada, mas por enquanto, fico com a Nota inserida de última hora. Ela foi colocada a poucos meses do lançamento do livro e sete meses depois de ele ter sido concluído em janeiro de 2005 - “No momento em que as provas deste livro estão sendo encaminhadas para prelo…”.
A Nota foi uma reação às denúncias de corrupção no governo Lula que pipocaram com maior volume e sem medo de ser feliz a partir de maio de 2005. “O que nos parece importante é comentar essa crise à luz das avaliações positivas do governo Lula que fizemos em vários momentos de nosso ensaio.”
Eis os quatro pontos da Nota
1. A derrota do desenvolvimentismo pragmático. … a crise atual destrói a última ilusão de que a transformação social possa passar pelo controle do aparato estatal e das alianças pragmáticas necessárias a tal objetivo. O grande resultado da derrota desse “projeto de poder” já é um dado: em vez de “controlar” o aparato estatal, trata-se de transformá-lo radicalmente.
2. A verdade do poder contra o poder da verdade. O que está em jogo nessa campanha de “moralização” não é a verdade. Pelo contrário. O que se afirma é a verdade do poder contra o poder da verdade. Na realidade, o poder é sempre corrupto, pois é fruto da corrupção da democracia, de sua limitação, de sua despotencialização, ou seja, da redução da potência de muitos ao poder de poucos (mecanismo fundamental da soberania hobbesiana que a democracia representativa confirma e legitima. O poder nasce da corrupção!
3. Moral e ética não são a mesma coisa. O que separa uma verdadeira perspectica ética do moralismo petulante e autoritário? Como acabamos de dizer, o moralismo continua afirmando que a democracia representativa deve ser “depurada”, quando é a própria representação que implica a corrupção.
4. Democracia absoluta. Maquiavel, que não gostava de Savonarola - moralista queimado pela Inquisição - , dizia que virtude é contrário de fortuna: ou seja, o povo sem “condottiere“; ou seja, aquela situação absolutamente democrática na qual a corrupção do sujeito não tem lugar, onde não existe separação, defendida por Hobbes, entre sujeito potente e o exercício dessa potência.
- (28/02) Etc - acesse também a postagem de Letícia Gonçalves Sobre a anti-democracia da democracia.
Os reveses daqueles que chegam ao poder e “esquecem” seus “ideais” e as voltas que as leis e os mecanismos da própria democracia permitem suscitam certa descrença naqueles que se encontram inseridos como mecanismos desses mesmos fenômenos, ou seja, nós.
É a democracia em si mesma anti – democrática, permitindo que poucos usurpem o poder em benefício próprio, ou são os tais detentores do poder que usurpam todo o potencial democrático da democracia em proveito próprio? Ou seriam as duas coisas?
Uma resposta daquelas que encerram as questões sem nada esclarecer poderia ser: o problema é que “a democracia de verdade” ainda não foi implantada.
É claro, assim como o “socialismo de verdade” e o “liberalismo de verdade”.
Não creio que isso leve alguém a algum lugar. A guerra entre ideologias também não parece oferecer uma saída decente.














Comments»