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Antes de pensar, vive-se! January 31, 2007

Posted by Ezequiel Vieira in : cotidiano, ufes , 6 comments

Alguém lembrou de escrever que a luta pela sobrevivência vem antes de que se aprenda a pensar. Camus ironiza e diz que dentre os pensadores que recusaram um sentido à vida, “nenhum, excepto Kerilov, que pertence à literatura, Peregrinos, que nasce da lenda, e Jules Lequier, que vem do mundo da hipótese, levou a sua coerência lógica ao ponto de recusar essa vida.” - eufemismo para suicídio mesmo.

O filme ‘Que Fiz Eu Para Merecer Isso” (Almodóvar) também se constrói em torno desse fato. A luta para se manter vivo como o maior influenciador das ações humanas. É um drama, mesmo tendo sido classificado como uma comédia. É inquietante, mas não hipócrita, concluir que essa verdade pode ser maior que as convenções sociais ou mesmo os laços familiares. E é exatamente os valores da instituição familiar o que é mais colocado em xeque nesse quarto filme da carreira de Almodóvar.

Uma família em dificuldades financeiras. Uma mãe que, para a sobrevivência do caçula, o deixa com um dentista pedófilo cheio de caras e bocas. Um pai ocupado demais que nem mesmo chega a notar a ausência do filho mais novo - o mais velho trafica drogas. Uma sogra sovina. Um assassinato em família em nome da auto-defesa.

Esses são os elementos básicos dessa narrativa de um Almodóvar em começo de carreira - em cartaz no CineMetrópolis.

‘Nunca vi um homem deblaterando contra o poder, sem o desejo secreto de possuí-lo’ January 30, 2007

Posted by Ezequiel Vieira in : política , 1 comment so far

1. Alguém digitou as seguintes palavras pra chegar a esse nobre blog “sou branca q passei pelas cotas mas estudei em escola particular”

2. Citação perfeita feita pelo professor de filosofia da Unicamp, Roberto Romano, na entrevista que o jornalista Eduardo Horácio fez com ele “Há um dito de Elias Canetti, autor do clássico livro Massa e Poder que fornece uma pista para entender os discursos e as práticas dos ‘radicais’ e ‘puros’ em política: ‘Nunca vi um homem deblaterando contra o poder, sem o desejo secreto de possuí-lo’. Por volta dos anos 80, o desejo do poder estava no plano do ‘desejo secreto’. Agora ele se tornou público e transparente.

3. Sobre o debate de ontem entre os candicatos à presidência da Câmara. Via Blog do Alon - “O debate foi duro, como convém a contendas entre adversários. Foi curioso ver aliados de ontem se engalfinhando e adversários de ontem de mãos dadas. É a política. O PT parece ter se magoado com a fala final do presidente da Câmara, que advertiu uma possível concentração de poder nas mãoes do PT. Eu não veria essa afirmação de Aldo Rebelo (PCdoB-SP) como uma crítica. Do ângulo da ciência política, chega a ser um elogio. Partidos existem para lutar pelo poder. Quanto mais, melhor. Por isso é que o pluralismo partidário é insubstituível na democracia: o apetite de um partido é controlado pelo apetite dos demais.”

Entrevistas feitas pela Câmara discute a atuação dos deputados na última legislatura January 29, 2007

Posted by Ezequiel Vieira in : entrevistas, política , add a comment

‘Na série de entrevistas com líderes e vice-líderes partidários sobre a atuação da Câmara na legislatura que se encerra nesta semana, conheça aqui a avaliação do líder do PMDB na Câmara, deputado Wilson Santiago (PB). Ele defende a necessidade de limitar o número de partidos políticos, que, a seu ver, é exagerado. Para ele, a queda da cláusula de barreira, considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF), é mais um motivo para se agilizar a reforma política. “A democracia precisa de partidos políticos fortes, de representantes com posicionamentos firmes e com interesse de contribuir para o bem-estar do País e da sociedade brasileira”, afirmou o deputado. Ele também abordou temas como o trabalho das comissões parlamentares de inquérito, a posição do PMDB no novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e nepotismo.

Texto publicado na Agência Câmara. O acesso a essa e a outras entrevistas da série no mesmo endereço.

“A modernidade quis organizar a agonia”

Posted by Ezequiel Vieira in : entrevistas, indicações, política , add a comment

Uma continuidade à postagem anterior

O caderno Ilustrada da edição de sábado da Folha publicou uma entrevista com Luiz Felipe Pondé sobre o lançamento de seu livro “Do Pensamento no Deserto”. A abertura da entrevista traz que a publicação trata-se de uma análise sobre a disputa “entre pensamento conservador e a modernidade, entendida como a crença na promessa de que a razão humana, de que a ciência, daria conta da realidade e seria capaz de reformar a vida e a sociedade, visando à melhoria do homem.”

De minha parte acrescento o primarismo na crença da promessa de que a política, em sentido estrito, seja capaz de atender à exigência de clareza e coesão que sempre buscamos.

O autor, que é professor do Departamento de Teologia da PUC-SP e da Faculdade de Comunicação da Faap, acredita que a modernidade é a utopia de que a gente seja capaz de organizar a agonia. Para ele, o ser humano não pode fugir daquilo que o fundamenta, agonia e incertezas. Pondé arremata dizendo que “O ser humano não é alguma coisa que tenha solução”.

Pra falar de verdades, acredito que o dito verdadeiro tenha que necessariamente tangenciar o pensamento de Camus quando escreve

Posso negar tudo dessa parte de mim que vive de nostalgias incertas, salvo esse desejo de unidade, esse apetite de resolver, essa exigência de clareza e de coesão. Posso refutar tudo nesse mundo que me rodeia, me choca e me arrebata, excepto este caos, este acaso-rei e esta equivalência divina que nasce da anarquia. Não sei se este mundo tem um sentido que o ultrapassa. Mas sei que não conheço tal sentido e que de momento me é impossível conhecê-lo. Que significa para mim um significado fora da minha condição? Só posso compreender em termos humanos. O que toco, o que me resiste, eis o que compreendo. E ainda sei que não posso conciliar essas duas certezas, o meu apetite de absoluto e de unidade e a irredutibilidade deste mundo a um princípio racional e razoável. Que outra verdade posso reconhecer sem mentir, sem fazer intervir uma esperança que não tenho e nada siginifica nos limites da minha condição?. Camus - O Mito de Sísifo. Ensaio sobre o absurdo

“A política substituiu o mito e a religião na modernidade” January 28, 2007

Posted by Ezequiel Vieira in : entrevistas, política, ufes , 4 comments

A minha sorte é que o salão de doação da biblioteca da Ufes é pouco visitado. E das visitas que recebem poucos sabem que algumas obras podem ser levadas pra casa. Não é empréstimo. Viu. Gostou. Levou. Dia desses encontrei um caderno de debates da Associação de Magistrados do Rio onde havia uma entrevista com Muniz Sodré.

Fiquei satisfeito quando notei que o hermertismo dos livros dele parece não se repetir em suas entrevistas. Pra variar, se analisou a política atual e uma das conclusões foi a de que muito da corrupção se deve a falta de representatividade das massas na política - mas ainda prefiro acreditar que a decepção que sempre é ouvida não é porque a representatividade diminuiu, como se em algum tempo mítico e ideal ela houvesse existido de forma satisfatória.

O mesmo Sodré acredita que a política passou a ter que responder por aquilo que antes seria buscado no mito e na religião. Como não se encontra abrigo esperado a decepção é certa. Simples, não?…

Enfim, segue um trecho da entrevista

A política deixou de ser expressão das grandes discussões?

A política não é mais o lugar de escuta de grandes razões, de grandes causas. A política se tornou um lugar de circulação de imagens, de circulação de aparências e, de certo modo, está-se votando na aparência dela. No caso da Jandira, é a aparência da integridade, aquela coisa forte que é ser mãe. Ter filho é uma das grandes causas das mulheres e dos homens também.

Então é isso, a política se tornou um lugar de aparências, fortes e fracas. Por esse motivo é preciso estar atento a essa transformação, a essa mutação da política, bastante distanciada daquilo que nós estamos chamando de ética. Assim sendo, essa falta de ética corrói a representatividade, que é o que lastreava classicamente a política: a representatividade e a liberal. Porque a política substituiu o mito e a religião na modernidade, quando passa a ser o lugar das esperanças terrenas - porque antes do advento da grande política, da política liberal, você tinha esperanças que eram alimentadas pela religião. Se você se comporta bem, não perde muito. Tenha seus filhos! Trabalhe! Mas não peque muito, porque morrendo, você vai ter uma vida melhor lá no reino dos céus, sua esperança de além-túmulo. (more…)