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Entrevista: “Toda nova tecnologia exige da sua sociedade um repensar e refazer de sensibilidades” November 28, 2006

Posted by Ezequiel Vieira in : entrevistas , trackback

Lá pelo 3º período fiz, junto com Juliana Farias, uma entrevista com o doutor em comunicação e professor na Ufba, Jeder Janotti, ex-estudante da Ufes. A idéia de fazer entrevistas com ex-alunos da comunicação partiu do professor Victor Gentilli - para o laboratório de jornalismo impresso que a gente fazia na época. O curioso é que a entrevista era para jornalismo impresso e essa e outras três entrevistas foram feitas por email ou messenger.

Tô resgatando alguns materiais que fiz para a universidade ou não e republicando por aqui.  Por ora, segue um desses primeiros resgates:

1.Por que você escolheu fazer jornalismo?
Na época eu tinha duas grandes paixões: a música e a literatura. Descobri que uma boa parte dos autores que li já tinham sido jornalistas. A relação com a música e minha opção por jornalismo está ligado à crítica musical e a relação que existia entre o aprendizado geral das comunicações e a ampliação de meu universo musical.

2.O que é jornalismo e porque ele é necessário na sociedade atual?
Jornalismo está diretamente ligado à Indústria da Informação. Hoje a informação é um dos principais bens de consumo da sociedade. Jornalismo é uma linguagem, uma técnica e, em minha opinião, um campo de conhecimento que trabalha com informação, ora funcionando como filtro do excesso informacional que nos cerca, ora espraiando à informação, vinculando-a ao processo comunicacional.

3.Você já teve experiência profissional em meios de comunicação e, caso contrário, como é abordar assuntos que exigem exemplos mais técnicos?
Eu já trabalhei como redator publicitário e como diretor/produtor de vídeo.

4.Como foi a escolha do Heavy Metal para ser o foco de estudo de sua carreira acadêmica?
Foi uma escolha passional. Sempre fui muito curioso em relação à música que ouço desde meus 13 anos, assim comecei a querer entender o rock, e em especial o Heavy Metal, como uma forma de expressão musical ligada à cultura das mídias.

5.Como a indústria cultural interfere na letra e no estilo musical? E até que ponto as bandas criam?
Não vejo incompatibilidade entre o processo de criação e a chamada “indústria cultural”. A música popular massiva e a canção tal como a conhecemos hoje é fruto do encontro da cultura popular com a indústria fonográfica, não há como pensar o rock sem percebê-lo como expressão midiática, portanto o estilo musical Heavy Metal é fruto das indústrias culturais.

6.O Rok é um dos estilos mais favoráveis a diversidade de composição de letras e melodias? A inspiração pode partir de qualquer referencial?
Acredito que sim, mas principalmente de uma certa idéia de “autenticidade”, uma estratégia de comunicação que diferencia o rock da chamada música pop.

7. Como definir uma obra como original ou reprodução do sistema vigente?
A música original é aquela que reconhece suas origens, se assume como midiática e não procura romantizar seu processo criativo, já a reprodução é uma cópia sem consciência.

8. O que você entende por indústria cultural e de que maneira ela age ou transformaria a cultura?
Antes de mais nada prefiro utilizar o termo no plural, ou seja indústrias culturais. Afinal é possível notar que dentro da indústria da informação ou do entretenimento, por exemplo o cinema, há diversas indústrias e com padrões produtivos diferenciados, vide por exemplo o cinema independente, o cinema brasileiro ou a indústria cinematográfica hollywoodiana. Não concordo com a expressão ditados por ela, afinal não somos meros recepetáculos dos temas,formatos e conteúdos das indústrias culturais: na verdade há uma interação, mesmo que assimétrica entre as capacidades de agendamento do público e da mídia, entre os diversos níveis de circulação e produção presentes na cultura mediática. Com certeza, dificilmente poderíamos discutir cultura sem perceber como grande parte, sem não a totalidade, das produções contemporâneas estão inseridas na lógica de produção da Indústria Cultural, mas isso não é uma afirmação negativista, é sim, antes de mais nada, uma constatação.

9.”A imprensa vive o paradoxo de ser um elemento chave do processo industrial capitalista e ter de desempenhar sua missão de apresentar a verdade e defender o interesse público”. Como fazer nesse contexto um jornalismo de interesse público sendo promotor de cidadania?
Antes de mais nada, não vejo motivos para se achar que a imprensa deva ser o bastião da verdade, uma olhada mais atenta na história do jornalismo e na produção contemporânea mostra que antes de ser um oráculo da verdade, a imprensa como fruto da sociedade industrial possue relações empresarias que configuram suas possibilidades de produção de sentido. Não é uma questão de fé na verdade, antes de mais nada o bom jornalismo se caracteriza pela credibilidade, pela capacidade de interpretação dos fatos e por assumir-se como uma interpretação possível do mundo, entre outras. O chamado interesse público pressupõe disputas e tensões presentes em diversos interesses e segmentos que compõem o campo social, na verdade a imprensa ou as imprensas são parte dessa disputa.

10.No livro O jornalismo na era da publicidade, o autor diz que com a crise dos paradigmas da modernidade, o jornalismo também entra em mutação, uma vez que ele um dos resultados da essência dessa era. A partir daí, transcrevo um pergunta: “uma vez substituída a tecnologia do alfabeto e da imprensa pela tecnologia eletrônica, poderá subsistir esta instituição chamada jornalismo ou ela terá que submeter-se a uma reforma radical de suas essências?” E neste caso, como isso ocorre ou pode ocorrer?
Toda nova tecnologia exige da sua sociedade um repensar e refazer de sensibilidades e idéias, ora, se toda a sociedade sente os reflexos das transformações digitais, não há motivo para ser diferente com o jornalismo.Naturalmente a instantaneidade, o acesso às fontes e o formato da matéria jornalística se transformam com o jornalismo digital, mas isso não significa mudar sua essência, seja lá o que isso significa. De qualquer modo vale lembrar que a tecnologia do alfabeto continua bem viva, inclusive nos meios digitais.

11.Qual a atualidade da idéia de o jornalismo ser o 4º poder e em que medida esse poder vem sendo exercido pela publicidade?
Primeiro, essa é uma visão que não é aceita de maneira unilateral por jornalistas e acadêmicos. Na verdade esse foi um pensamento surgido nos EUA e mal traduzido no Brasil. Quando se pensou que a imprensa era o quarto poder se imaginava que ela era uma espécie de guardião, ou mediador, das relações republicanas que envolviam legislativo, judiciário e executivo e não, como foi propagado erroneamente no Brasil, um poder que se apropriaria das outras esferas. Por isso não vejo sentido em discutir essa suposta substituição do jornalismo pela publicidade, pois apesar de serem parte da esfera midiática, publicidade e jornalismo possuem papéis diferenciados no campo social.

12.Qual deve ser a ação do jornalista para que a lógica do mercado não se sobreponha ao compromisso à verdade e ao interesse público?
Bem, não vejo como o jornalista e o jornalismo podem se colocar à parte da indústria da informação, portanto, de um modo ou de outro, atuamos dentro de uma lógica de mercado, para mim a questão é outra: como preservar a credibilidade e o respeito à diversidade de interpretações sendo parte da indústria da informação

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