projeto de pesquisa - resultado November 15, 2006
Posted by Ezequiel Vieira in : iniciação científica , trackback4 – Resultados Com o selo “Denúncia de Corrupção” (19/05) A Gazeta, em expõe em seu discurso-vitrina uma chamada para as denúncias de corrupção no governo Lula “Pedida a abertura da CPI dos Correios”. A primeira chamada cita que o presidente Lula “ainda tentou convencer os líderes partidários a desistir da CPI”. Enfatizou, tanto na linha fina quanto no começo do texto de chamada, a quantidade de senadores e deputados da oposição – 44 e 222, respectivamente – que assinaram o documento “… para investigar o esquema de Corrupção nos Correios” (grifo meu). O efeito de sentido produzido é o de que Lula – sujeito[1] que sabia e tinha a competência de poder-fazer (evitar), mesmo que eticamente não devesse – falhou e não conseguiu impedir que fosse apresentado o documento de abertura da CPI dos Correios. Na linha fina da chamada do dia 20/05 o mesmo jornal anuncia que a “CPI dos Correios será criada na quarta-feira”. Lula sai de cena e, por esta edição, foi o governo quem “tentou mas não conseguiu barrar início das investigações” (grifo do jornal). Já é possível perceber uma mudança do ator que pela enunciação do jornal, durante quase todo o percurso analisado, passará a ser o sujeito do fazer no sentido de impedir e/ou atrasar o trabalho das CPIs que serão pedidas. É interessante constatar que a expressão o Governo passa a designar o ator, no nível discursivo, sendo narrativamente atribuído a este sujeito a ação sem efeito de acordo com a intenção pretendida, revelada semanticamente pela utilização da conjunção adversativa mas e pelo advérbio de negação não. Observamos que, sem citar explicitamente o presidente Lula, é o governo quem aparece de novo como sujeito manipulador na tentativa de evitar a CPI “O Palácio do Planalto pressionou, ofereceu cargos e verbas, mas foi em vão: a CPI dos Correios deverá ser criada na quarta-feira no Congresso”. Nesse trecho do texto de abertura é reforçada a idéia da ação que não se concretiza - mesmo o governo tendo pressionado e tentado a oposição com cargos e verbas, que aparecem como objetos de valor de troca. Considerando que o legislativo tem a competência do dever legislar em consonância com os interesses da nação como eleitora, a imagem do governo é negativada, pois este aparece como um sujeito que contraria a vontade (o querer) do eleitor, tentando mudar a ação natural esperada do legislativo, outro sujeito que tem a obrigação (o dever) de investigar os fatos.
De modo claro, observa-se que o referido jornal produz um efeito de ambigüidade em seu discurso, visto que, na mesma edição, atenua a crítica ao governo ao informar que a CPI vai “apurar a possível existência do esquema de corrupção” nos Correios e não o esquema – fato considerado como indiscutível na edição anterior.
Em toda a trajetória pública da crise política, em dois momentos do período analisado A Gazeta publica pesquisas sobre a porcentagem de popularidade de Lula. O primeiro momento ocorre no começo de junho (01/06/05), quando o jornal traz a chamada “Escândalo diminui a popularidade de Lula”.
O segundo, em uma construção mais contundente, ocorre na edição do dia 12/06/05: “Denúncias abalam confiança em Lula”. Enquanto o verbo diminuir denota “tornar menor em dimensões”, o verbo abalar tem o sentido de “mover o que está firme, tirar do lugar”. Por esse caminho, o jornal sentencia que a confiança em Lula foi atingida em suas bases e que, neste momento, não conta mais com o maciço apoio popular que sempre teve.
Fausto Neto (1994) acrescenta que o uso das pesquisas traz implícito dois comportamentos polares. O primeiro seria o que marca o alto grau de adesão do enunciador ao enunciado e aos efeitos por ele previstos. O segundo teria o efeito de criar o simulacro de distanciamento, pois o processo de edição já traz, implicitamente, um forte componente de caráter avaliativo.
A chamada do dia 21/05 é uma declaração do presidente Lula “Olhem para a minha cara e vejam se estou preocupado”. Esse mecanismo enunciativo é conhecido semioticamente como um procedimento discursivo de debreagem enunciativa que visa criar o efeito de objetividade e fazer crer que não houve interferência do jornal no discurso publicado, transferindo a responsabilidade do enunciado para o próprio presidente da República. O emprego das aspas indica uma apropriação do discurso direto de outrem como recurso argumentativo. No caso, servia para marcar a existência de uma contradição, o que se confirma com a leitura do antetítulo e da linha fina, onde, respectivamente, encontram-se expressas as seguintes sentenças: “Nos bastidores, preocupação com a CPI dos Correios” e “Governo tenta evitar investigação, mas o presidente se diz tranqüilo”. Pelo efeito de sentido criado, se o presidente afirma que não está preocupado, não há razão para que seu governo tente evitar o início das investigações. A idéia fundamental resultante dessa relação entre o parecer e o não-ser é a da mentira.
Com o antetítulo “Corrupção no Governo” a construção da chamada do dia 23/05 é totalmente diferente: ”Lula pede rigor na apuração das denúncias”. Temos um presidente cuja fala e ação se completam. Antes de viajar para a Coréia ele interrompe as férias do ministro da Justiça, pede apuração das denúncias no Governo e orienta para que ninguém seja protegido. Lula deixa de ser um sujeito que afirma um estado de tranqüilidade e emerge como um sujeito operador, competente eticamente (faz o que deve ser feito), que chega a interromper as férias do ministro da Justiça para orientá-lo no sentido de que, mesmo que seja integrante do governo, ninguém seja poupado.
A partir de então, observa-se que a imprensa capixaba contribui com a estratégia petista que ficou conhecida como “blindagem”, qual seja a de separar a imagem do presidente da imagem do partido. Governo e presidente parecem agir claramente de forma oposta, pois, enquanto um (Lula) é o sujeito que pede que tudo seja apurado, o outro (“ministros e aliados do governo”) é quem, passa “…o dia em intensa mobilização para tentar retirar… apoios ao pedido de CPI [...] (26/05).
A utilização do verbo mobilizar é um indicativo de preocupação dos setores do governo, visto que denota, semanticamente, o ato de fazer passar do estado de paz para o de guerra, chamando ao serviço ativo as reservas para, imediatamente, entrarem em campanha[2].
A Gazeta faz do noticiário da criação da CPI um simulacro de um palco de guerra em que governo e oposição estão em batalha. O sujeito-governo aparece como um anti-destinador, fonte de valores contrários em relação ao dever fazer do legislativo, por tentar impedir a criação das CPIs. A oposição, de tal modo, surge como um anti-sujeito, aquele que se opõe à ação do outro sujeito, evitando a realização da performance programada. No caso da CPI dos Correios, o jornal destaca que “de revanche” a oposição venceu a batalha, pois, além de ter conseguido viabilizar a criação da CPI pôde dizer do PT o mesmo que o partido afirmava enquanto era oposição: o Governo tem culpa porque tentou impedir o início formal das investigações.
Na manchete o jornal destaca a performance do Governo e estabelece um perfil de incompetência. Pela palavra revanche também pode ser desdobrado o fato de que na oposição, o PT, agora no governo, se caracterizou por liderar todas as CPIs, sob a alegação da prerrogativa parlamentar, independentemente de apurações que outros órgãos realizassem.
Ramos (2003) também lembra o fato que o PT promovia atos públicos com o slogan “Fora FHC!”, em uma atitude de confrontação contra o governo anterior, igualmente eleito pela maioria eleitora. De tal modo, a postura do governo aparece na cena pública como contraditória, por valer-se dos mesmos métodos e argumentos do governo que criticava. Com a chamada “Governo agora quer atrasar trabalho da CPI” (27/05/05) o jornal concentra-se em um novo percurso narrativo do referido sujeito. A partir dessa edição o governo passa a ser o sujeito que, pelo fato de não ter tido a competência necessária para evitar a criação da CPI dos Correios, agora faz uso de um outro saber e de um outro poder: atrasar o início das investigações e atuar no sentido de conseguir conquistar os cargos de comando da CPI, conforme veremos mais tarde na chamada “Governo consegue o comando da CPI dos Correios” (16/06/05). Em “Governo tenta parar na Câmara CPI dos Correios” (28/05/05) é a primeira vez que A Gazeta classifica, diretamente, como “Operação de Guerra” a ação do governo para evitar a criação da CPI, assim mesmo entre aspas. É mais comum que as aspas sejam usadas para indicar que uma determinada fala é de um outro sujeito e não do ator da enunciação. Mas quando lemos o texto de abertura vemos que a expressão “Operação de Guerra” não está enunciada por ninguém e que, portanto, foi a maneira como o jornal classificou a notícia de que “… os governistas vão tentar hoje inverter a pauta da comissão de Constituição e Justiça da Câmara para que seja votado na frente o recurso do deputado João Leão contra o requerimento de criação da CPI” . Em “Nova investida – Membros da CPI poderão ser indicados em cinco dias” (03/06/05) A Gazeta dá seqüência às informações sobre as ações governistas no cenário que mais tarde passa a chamar de “Diário da Crise”. Nessas duas seqüências identifica-se modos de enunciar os fatos que buscam preservar a posição do jornal como observadora dos acontecimentos.
Uso a capa do dia 07/06 como exemplo de que o jornalismo não apenas reporta fatos; mas mostra e age segundo determinadas hierarquias e contratos de leitura que estabelecem com seu enunciatário, o leitor. “Não se trata mais de um mostrar em termos de pura referenciação dos acontecimentos, mas de um mostrar agregado de uma capacidade de semantização dos fatos, submetendo-os a escalas de julgamento, ordenando-os segundo ponto de vistas classificatórios” (Neto, A. Fausto/Castro, P. César/Lucas, Ricardo J. de Lucena; 1995, 121).
Temos a “saída” do acontecimento e a emergência do acontecimento-mídia. De modo explícito, deixa de haver um relato das denúncias de corrupção e constatamos como as notícias são construídas segundo o ponto de vista da enunciação. ‘Sabe-se que o processo de construção da realidade não é internamente livre, na qual o jornalista é meramente um observador, e nem que a notícia emerge livremente do acontecimento do mundo real; as notícias acontecem na conjugação de acontecimentos e de textos.
Enquanto o acontecimento cria a notícia, a notícia também cria o acontecimento (Fausto Neto, 1994, p. 330).’ A construção é ambígua, pois, a forma como Roberto Jefferson é posicionado em relação à chamada não permite identificar se a fonte daquela citação é, de fato, o deputado, ou do jornal. “Após longa e tensa reunião no Palácio do Planalto, o ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, confirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ‘ouviu comentários’ do deputado Roberto Jefferson sobre o pagamento de mesada a parlamentares da base aliada”. Vale lembrar que dentre as operações que a imprensa utiliza para construir a enunciação de forma neutra, a delegação do discurso a outras vozes é uma das mais freqüentes.
Ao utilizar falas de outros atores sociais, comumente, cria-se o efeito de sentido de imparcialidade, camuflando a presença do enunciador, o jornal coloca-se socialmente como o lugar de falas alheias.
A construção Lula sabia é aceita a partir de uma suposta declaração do ministro Aldo Rebelo que é dada como prova (confirmou) de que as denúncias correspondem aos fatos. Se apenas a manchete for lida o efeito de sentido é o de um enunciado sem atribuição de falas, como se “fato” se narrasse autonomamente. Nesse caso, a impressão é a de que uma verdade estabelecida se consolidou. Constata-se ainda que A Gazeta sanciona negativamente Lula e seu governo e impõe a esse sujeito um dever-fazer “As novas acusações tornaram irreversível a abertura da CPI para investigar a Corrupção nos Correios”.
Mesmo sem as investigações terem começado, e com base em declarações, a manchete quer-fazer-crer na veracidade de que houve “o pagamento de mesada a deputados da base aliada”. As denúncias de corrupção nos Correios passam da classificação de Denúncias de Corrupção e Fraudes nos Correios para “a corrupção nos correios”.
Vale lembrar Marcushi (1991, p. 79) quando diz que ao se informar a opinião alheia é possível levá-la a dizer algo que não disse. No texto de abertura A Gazeta já muda o seu discurso de certeza e passa a transferir a responsabilidade do Lula sabia “Segundo o ministro Aldo Rebelo, Jefferson falou sobre o assunto apenas ‘de passagem e de forma genérica’…”.
Marcushi reitera que este tipo de manipulação é chamada de manipulação implícita - quando os verbos introduzem opiniões sem um comentário adicional. “É interessante notar como as palavras de fontes do Governo são relatadas sancionadoramente, sendo opiniões muitas vezes tratadas como fatos”. ‘ … os procedimentos que usa o jornalista para conseguir o ‘balance’, o equilíbrio (necessários para se alcançar a objetividade em suas informações), não passam de meros recursos de verossimilhança; buscam apenas ocultar a presença do jornalista (…). A atribuição a terceiros das próprias opiniões, ou o uso de opiniões alheias para referendar as próprias, o recurso às regras de impessoalidade (…) só visam encobrir a medição . Com esses procedimentos de constrói a parte intocável e sagrada do jornal.
As seções informativas constituem uma realidade na qual o leitor deve crer, uma vez que lhe é proporcionada como se fora a realidade. (Sanchez citado por Barros Filho, 2003, p. 81)’ Ainda na manchete do dia 07/06, Jefferson aparece com microfones direcionados a ele e no antetítulo da chamada “Crise no Governo do PT” a sigla do partido dos trabalhadores é grafada sobre uma estrela estilhaçada. Tal construção discursiva permite evocar a fala de Ramos (2003, 12) em um artigo no qual analisou a capa da revista Istoé sobre uma outra denúncia que envolveu o PT – a de que o ex-subsecretário de assuntos Parlamentares da Casa Civil, Waldomiro Diniz, que durante as eleições de 2002 dirigia a Loterj, teria participado de negociações com o bicheiro Carlinhos Cachoreira.
Ramos pondera que a denúncia adquiriu maior repercussão pelo fato de o PT haver construído a imagem de um partido compromissado com a “bandeira tríplice da ética, da mudança e da esperança”. Com essa bandeira tríplice a autora ressalta que o partido sempre “exigiu cpis, fez importantes denúncias de corrupção e questionou inúmeras decisões de governos anteriores”. Esse fato ajudaria a explicar a estratégia enunciativa do jornal para fazer-crer que o símbolo do partido estaria em cacos. O efeito de sentido dessa capa é persuadir o leitor, fazendo-o crer que o PT violou o seu discurso-eixo e que, por isso, sua estrela foi quebrada.
A manchete abaixo, em aspas, é utilizada em conformidade à afirmação de Barros Filho (2003) de que a informação jornalística pode fazer crer numa representação do real desmidiatizada, ou seja, sem que a subjetividade inerente a todo processo de codificação fique notável.
Na linha fina de “Dirceu pode fazer Lula virar réu”. A Gazeta diz que “Roberto Jefferson reforça acusações, preserva Lula e não mostra provas“. É significativo constatar o efeito de sentido de dúvida depreendido dessa chamada “Num depoimento marcado por muita contundência e nenhuma prova, o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) acusou seis líderes partidários de envolvimento com o mensalão, e integrantes do Governo e do PT de participação no suposto esquema de compra de deputados em troca de votos”. O jornal destaca a posição de Jefferson como um sujeito acusador, mas que fica devendo o ônus da prova. Há espaço até para mostrar que “O deputado confessou abertamente dois crimes – o recebimento de R$ 4 milhões na campanha eleitoral … e o uso de cargos públicos em estatais para reforçar o caixa do partido”.
Na última vez em que A Gazeta trouxe Roberto Jefferson na capa, ele estava cercado por microfones e olhava para uma chamada sem aspas que foi dada como fato consumado e cujo conteúdo enunciado foi capaz de rachar a estrela do PT: “Lula sabia que deputados recebiam mesada”.
A diferença fundamental entre essas duas manchetes é que na primeira Lula aparece como um sujeito omisso (deve fazer, mas não faz) que sabia “de mesada a parlamentares da base aliada” e que não fez o que deveria fazer: evitar a continuidade da corrupção em seu governo, principalmente para ele e seu partido que sempre apregoaram a moralidade política. Já na segunda manchete (15/06/05), o alvo passa a ser Dirceu e o governo petista, mas Lula é preservado no reforço das acusações feitas por Roberto Jefferson.
A delegação de voz caracterizou a única chamada de capa que A Tribuna trouxe durante o período analisado. Para fazer crer que seu discurso é uma verdade enunciada, o jornal usa o recurso da desembreagem enuncitiva – já estudado neste trabalho – e assume o papel de fazer a locução do que foi o depoimento de Roberto Jefferson. Por duas vezes a inserção direta de trechos da fala do deputado:
“Dirceu, se você não sair daí rápido, você vai fazer réu um homem inocente, que é o presidente Lula”.
“O presidente Lula é inocente, a reação é a reação de traído”.
A legenda da foto, em pressuposta imparcialidade, enuncia um resumo do que foi o depoimento de Jefferson “Presidente do PTB garantiu que a cúpula do PT, incluindo Dirceu e José Genoíno, sabia do ‘mensalão’”.
Diferente do que aconteceu em A Gazeta, pela enunciação de A Tribuna, nem de longe fica pressuposto que o depoimento de Jefferson foi “marcado por muita contundência e nenhuma prova”.
Junto ao texto que integra a chamada, a foto de Jefferson cria o simulacro dele mesmo como ator do enunciado. É um simulacro porque em um jornal “é preciso depreender o ator implícito a uma totalidade, como um sujeito que não só reorganiza o mundo a seu modo, como é arquitetado pelo próprio discurso” (Discini, 2002, p. 254). O ocultamento da instância enunciativa nem sempre consegue refletir a neutralidade desejada.
Segundo Ramaldes, (1997, p. 17) “há escolhas discursivas que revelam a avaliação do enunciador, seja sobre o fato narrado ou sobre os atores inscritos no enunciado”. Pela capa desta edição e pela aceitação da fala de Roberto Jefferson (“Presidente do PTB garantiu”), encontra-se em A Tribuna o que também foi identificado em A Gazeta na maior parte das edições estudadas: a aceitação de uma separação entre as figuras do presidente Lula e de seu governo. Observemos trechos impressos na capa do jornal: “… Dirceu e José Genoíno sabia do ‘mensalão’” enquanto que o “Presidente Lula é inocente, a reação é reação de traído”.
Na manchete “Lula: ‘Cortarei na própria carne, se necessário” (08/06/05) textualmente, Lula é apresentado como o sujeito do fazer operador, que promete investigar as denúncias de corrupção em seu governo “até as últimas conseqüências”.
O presidente é modalizado duplamente: por um saber e poder fazer decorrente do cargo que ocupa e também por um dever fazer pragmático pressuposto na afirmação de que após investigar as denúncias - fará cortes na própria carne (governo, partido), se for o caso. Essa modalização é reforçada pelo enunciado de Lula entre aspas. Uma das funções desse recurso é o de criar o efeito de realidade/verdade e o de reforçar a credibilidade da informação, muito freqüente quando ocorre a referência a fontes legitimadas socialmente.
Quando tomamos a composição da manchete como um todo, identifica-se um conflito entre o texto e a forma como a imagem do presidente é mostrada. O sujeito do texto verbal (que deve/quer/sabe e pode fazer) não é o mesmo da imagem que A Gazeta apresenta.
O Lula da imagem é um sujeito preocupado, em conflito com o dever e o dizer “cortar a própria carne”, enunciada na manchete. Toda a chamada é construída sob um fundo vermelho, o que pode remeter tanto à cor símbolo do PT, quanto simbolicamente à sangria que poderá decorrer de quem promete fazer cortes na própria carne para moralizar o governo. Considerando que o vermelho é referente ao PT, o efeito de sento criado é o de que estão marcadamente desvinculados o presidente e o partido pelo qual ele foi eleito – Lula está de costas para quase todo o retângulo vermelho que compõe a totalidade da manchete.
Se por outro lado constatarmos que o governo não é formado apenas pelo PT e o vermelho poder simbolizar a sangria anunciada, um outro efeito de sentido percebido é o de que, das figuras que irão constituir o corte na própria carne, uma se destaca. Do fundo vermelho uma sombra sobreposta ao braço direito de Lula ganha forma. Onze dias depois a identidade dessa sombra parece se revelar – apesar de que, pela forma como A Gazeta construiu o seu discurso-vitrina, não era para ser considerado uma grande surpresa.
A capa do dia 17/06/05 é uma imagem de José Dirceu acompanhada de uma manchete em que se recupera a promessa do sujeito do fazer operador - o presidente Lula – e faz crer que Dirceu é o primeiro de outros personagens (ou sombras) que virão “O primeiro corte na própria carne”. Em nome do resgate da conquista do objeto-valor prometido ao eleitor brasileiro - a ética e a moralidade política – decorre a antecipação do mutilamento pela qual o governo Lula passará ao longo dos meses em que a crise se desenrolará. Se na outra capa é perceptível a dúvida quanto ao fazer do presidente, nessa há uma sanção positiva, pois Lula emerge como um sujeito que cumpre aquilo que promete e toma atitudes de quem governa.
Vejamos o texto de A Gazeta, na mesma capa citada:
“Nove dias após o presidente Lula ter dito que o Governo ‘cortaria na própria carne’ para preservar sua biografia e a do PT, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, anunciou ontem sua saída do cargo. ‘Saio de cabeça erguida. Não me envergonho de nada do que fiz’ disse em sua despedida. Ex-homem forte do Governo, eminência parda do presidente no partido e no Planalto (grifo meu), Dirceu foi um dos principais alvos das denúncias feitas pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) sobre o pagamento de um ‘mensalão’ a deputados da base aliada (…) A demissão é a primeira ofensiva do Planalto diante das denúncias e também o primeiro movimento de uma reforma ministerial que deve ser concluída na próxima semana”.
Esse procedimento enunciativo permite retomar a análise feita por Fausto Neto (1994) para uma construção semelhante. Temos um enunciador que, sob o pretexto de informar um fato, produz um comentário em que avalia a complexidade da crise, apontando a hierarquia do processo de demissões e chamando a atenção para o momento em que integrantes vistos como aqueles que “realmente governam” - a revista Veja chegou a dizer que enquanto Lula viaja Dirceu governa – são retirados do governo.
Vale ressaltar os verbos performativos utilizados por A Gazeta e A Tribuna nas chamadas sobre a saída do ministro José Dirceu da Casa Civil. A Gazeta trouxe o caso como manchete e usou o verbo cortar - remetendo à fala de Lula de que se fosse preciso, faria cortes na própria carne - e A Tribuna trouxe o mesmo caso como uma das primeiras notas que sempre estão na parte superior do jornal e diz que o ministro caiu.
O verbo cair significa “ir abaixo em virtude do próprio peso; ir ao chão por falta de equilíbrio; ser demitido” enquanto o verbo cortar remete a “dividir um corpo em duas ou mais partes por meio de instrumento cortante”. Os dois verbos denotam uma ação reflexiva, mas que remete a um sujeito do fazer distinto.
Para A Gazeta a disjunção de Dirceu de seu objeto-valor (o poder, metaforizado por “eminência parda do presidente no partido e no Planalto”) é resultado da ação do presidente Lula, referenciado como o sujeito que agiu e também sofreu “nele” mesmo o resultado dessa ação. Implicitamente, Dirceu emerge como um sujeito interditado – ele quer, sabe, mas cujo poder-fazer lhe foi retirado.
Em A Tribuna o “corte na própria carne” ganha outro criando o efeito de sentido de que o ministro, pela semântica do verbo empregado, caiu devido a seu próprio peso ou falta de equilíbrio. Pela análise de capa de A Tribuna, o pressuposto é o de que a saída de Dirceu do governo deixa de ser uma interdição, mas o resultado da limitação do próprio ministro.
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[1] Sujeito: é o actante sintático da narrativa que se define pela relação transitiva de junção ou de transformação ao objeto e graças a que o sujeito se relaciona com valores [2] Dicionário Michaelis. São Paulo: Companhia de Melhoramentos, 2001

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Bjo