projeto de pesquisa - introdução 2ª parte November 11, 2006
Posted by Ezequiel Vieira in : iniciação científica , trackbackTá, não resisti. O restante da introdução e os materiais e métodos tão aí.
Política, mídia e espetáculo
A mídia ocupa um espaço privilegiado no cenário social ao constituir-se como espaço público fundamental na sociedade contemporânea. A construção do temário e os diferentes modos de operar o discurso jornalístico são pautados por um contrato implícito entre o enunciador (os veículos, no caso) e o enunciatário (leitor, telespectador, ouvinte) orientado por regras que busquem garantir a legitimidade das informações a partir de uma postura que faz crer numa isenção dos profissionais que lidam com a atividade. Para que haja essa construção cotidiana, o suporte comunicacional aciona diversos procedimentos visando à produção de enunciados. Por enunciação jornalística entendemos o processo de funcionamento da linguagem verbal e não-verbal, através do acionamento de estratégias discursivas específicas tanto do campo da imprensa quanto à experiência pessoal do repórter. Dessa maneira, a seleção que um jornal faz do que será noticiado – principalmente em sua capa, seu discurso vitrina – revela o seu perfil enquanto enunciador, como do leitor, seu enunciatário. Cada jornal, a partir de uma opção enunciativa, define seu modo de presença junto à sociedade através do que chama de linha editorial, em consonância com o público ao qual serve. É o que estabelece a identidade de cada jornal, a partir da competência temática que explicita (Ramaldes, 1997, p 4). No caso específico desta pesquisa, isso pôde ser percebido quando ficou evidente a significativa referência que A Gazeta fez à crise política no governo Lula, enquanto A Tribuna, em sua capa, praticamente continuou com seu perfil temático tradicional priorizando as chamadas policiais e as de oportunidades de emprego. A maioria das vezes em que este jornal se referiu à crise foi através de chamadas para os colunistas Cláudio Humberto, Miriam Leitão e Élio Gaspari, que vinham ao final da abertura da matéria principal. Vale ressaltar que nesse estudo optamos pelas notícias caracterizadas pelo gênero informativo.
“Período selecionado: 19/05/05 a 30/06/05
quantidade de jornais analisados a partir das referências diretas à crise - Gazeta: 39; Tribuna 12
MANCHETES - Gazeta: 6; Tribuna: 1
CHAMADAS - Gazeta: 7; Tribuna: 1
CHAMADAS COM ABERTURA DE TEXTO - Gazeta: 26; Tribuna: 0
CHAMADAS PARA COLUNISTAS - Gazeta: 5; Tribuna: 12″
Rothterg (2005) cita Street para dizer que os relatos jornalísticos da política são como peças que seguem modelos ficcionais. “A mídia de massa não ‘cobre’ simplesmente eventos observáveis e reporta fatos; ela os anima, transformando-os em narrativas com atores”. Esse modo de reportar, segundo o autor, seria similar aos recursos empregados pelo cinema. Os filmes usam artifícios do cinema para contar uma história, criando personagens em um mundo factível; as notícias fazem serviço semelhante para os eventos sob seu foco. Os repórteres também contam histórias. Elas descrevem a busca de ambições políticas, as realidades e os pactos, as fragilidades humanas e força de vontade. Carreiras políticas às vezes assumem formas épicas, acabando em tragédia ou triunfo, mais freqüentemente, tomam o aspecto de novela. (Street citado por Rothberg) Rothberg também afirma que todos os eventos, mesmo a própria noção de ‘evento’, são produto de uma moldura ideológica que cria ordem a partir de um número infinito de observações ou impressões. Nesse sentido, ganha relevância questão de que antes de serem comunicáveis, as informações devem se formatar em uma organização lógica que assuma contornos de uma história que mereça ser contada. A partir dessa hipótese, a política é contada como uma história uma vez que isso facilita a tarefa de ligar elementos que, de outra forma, dificilmente poderiam ser percebidos fora da complexidade que os delimita de fato. Lima (2001) diz que a mídia passou a exercer algumas atividades que tradicionalmente pertenciam aos partidos, como definir o que é de interesse público, fiscalizar e pautar o governo. O autor lembra que a mídia desempenha hoje funções como pautar a agenda pública dos temas relevantes para a discussão na esfera pública, gerar e transmitir informações políticas, exercer a crítica das políticas públicas e canalizar as demandas da população junto ao governo. Neste processo de transformações sociais, a mídia passou a ser responsabilizada por mudanças profundas na própria natureza do processo político. Afirma-se que ela tem contribuído para uma espetacularização da política e que muitos políticos começam a pautar suas ações considerando sua posição na mídia.
Esse cenário localiza um dos pontos da rede de poder da comunicação: o poder de construir a realidade por meio da representação que faz dos diferentes aspectos da vida humana. Neste processo de representação, construção e significação da realidade, a mídia contribui para a elaboração de certos climas ou certas atmosferas sociais.
memória da crise1
A crise no governo Lula é desencadeada a partir das denúncias de corrupção nos Correios que começaram a ser publicadas pela revista Veja (edição 1.905, de 18/5) e por um documento apresentado pelo Fantástico (Rede Globo, domingo, 15/5). Na ocasião a revista apresentou uma conversa gravada com empresários na qual Maurício Marinho, chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios, dizia cobrar propina em nome do deputado Roberto Jefferson (RJ), presidente do PTB, partido da base aliada ao governo.
Acuado e sem ajuda de ninguém, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo (06/06/05), Roberto Jefferson diz que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, pagava uma mesada de R$ 30 mil a parlamentares do PP e do PL em troca de apoio ao governo no Congresso. Jefferson afirma que a referida mesada, para a qual ele criou a alcunha de “mensalão”, teria sido paga até janeiro, e só acabou depois de o presidente ter sido informado de sua existência pelo próprio deputado.
Em nova entrevista ao jornal Folha de S. Paulo (11/06/05), Roberto Jefferson reafirma a existência de um esquema de mesada aos deputados, alegando que o “mensalão” era pago em dinheiro vivo e provinha de estatais e empresas privadas, acrescentando que era transportado em malas por dois operadores: o líder do PP na Câmara, deputado José Janene (PR), e o publicitário, Marcos Valério, dono das empresas DNA Propaganda e SMPB, ambas de Belo Horizonte. Em depoimento no Conselho de Ética da Câmara, Roberto Jefferson, acusa a cúpula do PT e o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, de comandarem um esquema de corrupção que vai do “mensalão” à formação de caixa dois para campanhas eleitorais de aliados. Entre os petistas acusados estão o secretário-geral Silvio Pereira; o presidente nacional do PT, José Genoíno; o secretário de Comunicação do partido, Marcelo Sereno; além do tesoureiro Delúbio Soares. Ainda segundo Jefferson, o PTB participava do esquema e a negociação com o partido teria sido feita pelo presidente do PT, José Genoíno, e a entrega do dinheiro pelo tesoureiro Delúbio Soares.
No dia 14 de junho, depois do depoimento de Jefferson, a revista Isto É Dinheiro publicou uma entrevista com a ex-secretária do publicitário Marcos Valério. Fernanda Somaggio relatou como malas de dinheiro eram retiradas do Banco Rural, por ordem do publicitário, para suposto pagamento de propina a integrantes do governo. Desgastado pelas denúncias, José Dirceu se afasta do governo no dia 16 de junho de 2005. No dia 4 de julho, o secretário-geral do PT, Silvio Pereira, pede licença da executiva nacional do partido para se defender das acusações. Um dia depois é a vez de Delúbio Soares.
Em entrevista ao Jornal Nacional, Marcos Valério confessa ter armado o esquema de financiamento do PT e que fez isso a pedido do tesoureiro Delúbio Soares. Extratos do Banco Rural, enviados à CPI dos Correios, revelavam que parlamentares do PT, PL e PP, entre outras pessoas, faziam saques em dinheiro vivo das contas das empresas do publicitário Marcos Valério, reforçando os indícios de que o esquema financiava um tipo de “mensalão”.
3 - Materiais e métodos
A proposta inicial do trabalho foi o de produzir um recorte no corpus da pesquisa, optando pelos dois jornais capixabas diários, selecionando as notícias publicadas no período de 19 de maio de 2005 a 30 de junho do mesmo ano. Após a seleção do material e dos conhecimentos teóricos e metodológicos de análise adquiridos através da disciplina Semiótica e Comunicação, oferecida em 2005/2 pelo Departamento de Comunicação Social/Ufes, optou-se por uma análise de conteúdo das matérias recortadas das duas publicações jornalísticas, utilizando o percurso gerativo do sentido proposto pelo fundador da Semiótica Discursiva, Algirdas Julien Greimas, a partir de leituras centradas, sobretudo, em obras publicadas por Diana Luz de Barros, José Luiz Fiorin e José Courtés.
O Percurso gerativo do sentido, enquanto percurso metodológico, possibilita a análise em três níveis distintos: o fundamental, o narrativo e o discursivo. Floch (2001) afirma que o nível discurso é a etapa onde a enunciação passa a significar, a partir do momento em que um sujeito7, denominado enunciador “seleciona e ordena as virtualidades oferecidas pelo sistema”.
É aí que o enunciador fixará as grandes oposições que atravessarão toda a obra e garantirão sua homogeneidade; é aí que ele escolherá fazer exercer uma determinada função narrativa por uma ou mais personagens; é aí ainda que ele optará seja por deixar o seu enunciado com um caráter mais figurativo, ou até mais ‘verdadeiro’ (Floch, 2001, p. 16-17)
O mesmo autor demonstra que no nível fundamental se verifica as diferenças que fundam a significação e os pressupostos resultantes da relação do efeito de sentido das palavras que regem o percurso da enunciação esquematizado a partir do chamado quadrado semiótico “onde se representa a relação de contrariedade ou de oposição entre os termos e, a partir dela as relações de contradição e de complementariedade” (Barros, 2002, p. 89). No nível narrativo estão as relações identificadas no nível fundamental e também as transformações de “estado” e de “fazer”, com suas combinações e encadeamentos.
Considerando que as escolhas enunciativas eram o alvo prioritário para identificar o perfil do governo e do presidente construído pelos dois jornais, a atenção analítica foi concentrada no nível discursivo. Examinou-se então, as relações do enunciador com o enunciado, a partir dos modos de projeção nos discursos publicados e as relações argumentativas utilizadas para persuadir os enunciatários-leitores sobre a verdade e a realidade do próprio discurso jornalístico.
Observando a construção semântica como marcas enunciativas, conforme o objetivo do trabalho, partimos para a análise visando identificar o perfil semiótico atribuído ao governo e ao presidente Lula pelos dois jornais e que vai refletir a imagem pública construída pela mídia local. Mais precisamente, identificou-se os mecanismos de qualificação e de desqualificação do governo utilizados pelos dois jornais a partir das escolhas enunciativas de verbos, advérbios, adjetivos, conjunções etc.
1 O percurso da crise foi adaptado a partir do resumo apresentado no trabalho A crise política no Governo Lula sob a ótica de Veja e Carta Capital apresentado no GT 02 – Produção Editorial do Intercom Sudeste 2006. Autores: Neusa Fumie Nishida e Silvia Olga Knopler Santana
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Acesse o projeto na íntegra (.doc)










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