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Até que ponto o Brasil é tão bom quanto o seu voto? September 20, 2006

Posted by Ezequiel Vieira in : política , add a comment

Nunca gostei da propaganda do TSE. “O Brasil está nas suas mãos. O Brasil é tão bom quanto seu voto. No dia 1o de outubro somos mais de 125 milhões de patrões”. Tive ainda mais razões pra detestar quando folheei de novo o livro Transformações da política na era da comunicação de massa (Wilson Gomes) e encontrei o seguinte trecho:

“Com a especilização de funções e poderes em duas esferas distintas, a democracia sempre se viu nas malhas da controvérsia sobre a efetividade do poder da esfera civil. No interior dos discursos de autolegitimação de que é pródiga, a democracia tem um dos centro dogmáticos na idéia de soberania popular, a idéia segundo a qual o conjunto de cidadãos se autodetermina politicamente e o povo está no comando do Estado. Nessa perspectiva, a esfera civil é constituída pelos mandantes e a esfera política, pelos mandatários. Historicamente, entretanto, o centro de poder do Estado parece ser ocupado pela esfera política, cujo núcleo está no governo, restando à esfera civil apenas intervenções episódicas em eleições para escolher, em função do cliente, uma dentre várias opções de configuração do Estado produzidas pela esfera política e oferecidas no balcão eleitoral.

Em outras palavras, na divisão social do trabalho político, para usar a expressão de Bourdieu, a esfera dos mandantes, mais nobre em termos ideológicos, tornou-se historicamente mais passiva, enquanto a esfera dos mandatários, que do ponto de vista da ideologia democrática é secundária, tornou-se mais ativa e efetiva”.

palestra de sexta à noite: “O presídio é a lata de lixo para uma massa que deixou de gerar interesse” September 17, 2006

Posted by Ezequiel Vieira in : eventos/debates, política, política/ES, ufes , 4 comments

 atualizado em 19/09/06
O momento era para discutir as relações entre mídia e o sistema prisional no ES, mas o que foi apresentado pode ser ampliado para além da realidade capixaba. Destaco a fala de Júlio Pompeu quando comentou que a prisão só tem importância porque alimenta uma sociedade de exclusão. “É um problema social. Mas a nossa sociedade não é de inclusão. É de exclusão sistemática”.

Claro que Pompeu não obteve unanimidade. Pude perceber isso pelo burburinho das pessoas na saída da palestra. “Ele exagerou. Não é bem assim não” etc etc - ainda incomodava a fala de que o prisídio nada mais é do que a lata de lixo da sociedade. “De uma forma geral, o que se espera é que as pessoas não saiam de lá nunca mais. Se morrer, ótimo!”

“O sistema prisional não é um fracasso, é um sucesso. Você é quem foi enganado quanto ao projeto e ao objetivo dele.”

Pompeu explica que a hipótese de Foucault - autor presente em seu TCC, mestrado e doutorado - é a de que as macroinstâncias da sociedade são compreendidas por meio de suas microinstâncias. “Quando a massa se tornou importante industrialmente foi que ela se tornou objeto de políticas públicas. A prisão era uma casa de disciplina porque a sociedade era disciplinar. Intensificada a disciplina, o indivíduo está plenamente displinado e adequado à sociedade”. Acontece que não há mais necesssidade de pessoas para produzirem. Há excesso. “Não somos uma sociedade disciplinar porque a massa deixou de gerar intesse”. continuação deste post

Ps. 1: um relato mais completo da palestra pode ser lido no Grito Sufocado

Ps. 2: para quem quiser saber mais do pensamento de Foucault a UnB criou o Espaço Michel Foucault onde se pode encontrar biografia, links, textos em português e artigos do autor. O orkut também tem quase 1000 comunidades relacionadas a ele. A que tem mais cara de conteúdo encabeça a lista e conta com 13885 membros. O link é este.

Ezequiel Vieira

Partido puro debate, mas não ganha eleição, conclui cientista político September 15, 2006

Posted by Ezequiel Vieira in : eventos/debates, política, ufes , 5 comments

Essa era a única conclusão possível depois de tudo o que foi apresentado na postagem de quarta-feira - o que também ajuda a entender o porquê da candidatura de Heloísa Helena não ser viável desde o começo. Outras hipóteses, vindas diretamente da minha aula de Representação e comportamento político de ontem à noite, é que: o Psol é um partido novo e que não tem organizações fortes o suficiente para mobilizar a candidatura presidencial pelos estados; as pessoas entendem que o figurino básico de blusinha branca e calça jeans é muito bom pra se combater à corrupção, mas não é o bastante pra ser presidente - o eleitor desejaria uma imagem de comando, de uma executiva que saiba fazer outra coisa além de esbravejar.

Mas enfim, é melhor ir direto às contra-argumentações feitas no debate:

2. A viabilidade de uma 3ª via no processo eleitoral
Um partido que seja só de centro também não ganha eleição e é exatamente essa a característica do único partido forte que teria condições de fazer a tal da alterrnativa ao PSDB e ao PT. A organização partidária brasileira, pela explicação de Fabiano, ajuda a entender o motivo de o PMDB há três eleições não lançar candidato próprio à presidência.

O cenário político brasileiro seria caracterizado por uma tendência centrípeta - os partidos saírem das extremidades e caminharem para o centro. Nome o PMDB até tem, mas não é só ser centrista que garante vitória. E é exatamente onde aí que residiria o problema. Se o candidato peemedebista caminhar para esquerda, já encontra o lugar ocupado pelo PT, se caminhar para a direita, vê que o PSDB chegou primeiro - “as rotas para agregar algum capital eleitoral já estão devidamente ocupadas”.

“A única saída pro PMDB - como já foi mencionado por aqui no post E as propostas do PMDB, hein? - seria sobreviver no legislativo e nos estados. Ele não tem condições de competitividade se não definir a qual tendência pertence, pois só ganha eleição quem modera o discurso e vira centro-esquerda ou centro-direita. Não há espaço para meio-termo, extremados ou indecisão”.

Por esse raciocínio não há, em condições normais, espaço para candidaturas imaculadas terem sucesso em nosso querido país. Se o partido mantiver o estado puro, ele não amplia o patrimônio de votos, se ficar moderado, vai perder o apoio inicial dos radicais.

Ps 1: a terceira contra-argumentação vai ficar postada no comentário.
Ps 2: segue uma seção especial da Folha de S. Paulo sobre as Eleições 2006

Ezequiel Vieira

A diferença entre esquerda ou direita de manifesta na ênfase dada às questões, diz professor da Iuperj September 13, 2006

Posted by Ezequiel Vieira in : eventos/debates, política, ufes , 3 comments

A condução do debate “A democracia e processo eleitoral”* se fez por duas linhas básicas. A primeira seria que discurso extremado não ganha eleição.

A segunda, que na verdade é conseqüência da anterior, é que partidos competitivos se assemelham para conseguir um fim comum: votos. “Mas eles não são os mesmos. A aparente semelhança esconde diferenças importantes”.

Essa foi a fala do professor e doutor em ciência política/Iuperj, Fabiano Santos (foto), no momento em que ele contra-argumentou três teses que nortearam a análise do processo eleitoral de meados de 2005 pra cá.

1ª tese: A semelhança entre o PT e o PSDB. Em essência eles seriam a mesma coisa
2ª tese: A viabilidade de uma 3ª via no processo eleitoral
3ª tese: A corrupção como critério determinante na escolha do candidato

*Também participou do debate de hoje pela manhã (auditório do IC IV - Ufes) o também doutor em ciência política e professor da Ufes, André Pereira.

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Posted by Ezequiel Vieira in : eventos/debates, política, ufes , 1 comment so far

1. A semelhança entre o PT e o PSDB. Em essência eles seriam a mesma coisa. Fabiano destacou que a análise das eleições realizadas a partir de 1986 permite afirmar que a característica do processo eleitoral brasileiro tende para a estabilidade. A única novidade, verificada ao longo desse período, seria a da transformação do PT em um partido forte.

A disputa partidária se daria hoje fundamentalmente em torno de quatro legendas: PT, PSDB, PFL e PMDB - com a clara polarização entre PT e PSDB desde 1994. Esse quadro permitiria aproximar o sistema político brasileiro ao de democracias mais maduras - em que o cenário partidário se estabiliza em torno de algumas forças políticas e as eleições para o executivo girariam em torno de dois pólos. Um ligado às questões do trabalho (centro-esquerda) e o outro ligado a forças empresariais (centro-direita).

Esse quadro levaria os partidos a montar um discurso mais moderado na tentativa de conquistar a confiança “do eleitor que não é nem de direita nem de esquerda. Está no centro.” O professor citou o exemplo das eleições majoritárias em que se disputa 50% mais um das intenções de voto. Para um partido obter essa maioria, além de ter que conquistar o voto do eleitorado de esquerda e de direita, seria inevitável a moderação do discurso para também alcançar o eleitorado de centro. “Quem conquistar a confiança do eleitorado de centro, ganha a eleição”.

Por essa esquematização, PT e PSDB seriam sim partidos de esquerda e de direita, mas que precisam atender a uma agenda de questões nacional da qual é impossível fugir. A conseqüência mais evidente é a da semelhança entre os programas de governo tucano e petista. “A diferença vai ficar então na trajetória histórica de cada partido e na ênfase dada a cada questão. Mas isso não significa que os partidos sejam os mesmos”.

Fabiano afirma que o PSDB no governo se caracterizou por uma ação de capitalismo. “As reformas foram orientadas para o mercado. A coisa mais importante era estabelecer condições e gerar confiança para que se tivesse investimento do setor privado. A ênfase do PT não foi essa. E esse é um fator determinante para o favoritismo de Lula - a política social.

O professor, num inseparável didatismo, continua dizendo que existem restrições objetivas para aquilo que é possível fazer no Brasil. E essas retrições “estão colocadas para qualquer governo - vindo da direita ou da esquerda. Essa realidade não aparece no processo eleitoral e faz com que candidatos realmente competitivos adotem praticamente o mesmo discurso.”

Ps 1: as outras hipóteses vão ser postadas na sexta. São elas:
2. A viabilidade de uma 3a via no processo eleitoral
3. O caráter decisivo da corrupção no processo elitoral de 2006

Ps 2:as análises foram propostas em fevereiro deste ano.